O amante

Normalmente, o que mais me chama atenção num livro é a história, não o seu jeito de contar. Não me importo tanto se o autor escreve em frases curtas ou longuíssimos parágrafos de uma só frase. Se em grandes blocos de textos, sem parágrafos nem capítulos, ou por meio de pequenos aforismos. Pode ser em primeira pessoa, terceira pessoa ou por várias pessoas narrado. O que eu quero mesmo saber é o desenlace!

Será que o Harry vai sobreviver? Conseguirá Artemis salvar o mundo das fadas? Liêvin e Kitty terão ainda mais uma chance de ficar juntos? Quem matou Ratchett? Que fim levará Spud? Será possível que Kevin cometeu mesmo uma atrocidade dessas? E com os Terra, o que acontecerá?

É a curiosidade e a vontade quase mórbida de saber a vida dos outros que move os olhinhos ligeiros e os dedos agitados no virar das páginas!

Por isso, muito me admira: o que mais me intrigou em O amante foi a forma como Marguerite Duras o narra. Imagine um filme que comece em flashback. A imagem fica até meio desfocada, como que para diferenciar e mostrar que o que se vê na tela não é o tempo de agora, mas um tempo que já aconteceu. Porém, no meio desse flashback, a imagem, sem que você perceba, vai voltando ao normal. E você esquece que o personagem que o narra não é aquele da história atual, mas um outro, mais velho, que está lá na frente da história. É mais ou menos o que faz Duras.

marguerite duras

Dizem que O amante é o livro mais autobiográfico de Duras. Isso me fez lembrar uma resposta de Caetano quando perguntado se suas músicas eram autobiográficas. Era mais ou menos assim: “Todas são. Até as que não são, são”

Ela começa se referindo a um tempo passado e a narrativa está no passado. Só que, de um parágrafo para outro, ela começa a contar no presente o que aconteceu anos atrás, como se fosse novamente a menina de 15 anos que um dia fora. “Estou num pensionato público em Saigon. Como e durmo nesse pensionato, mas vou às aulas fora, no liceu francês”. Em outros momentos ela volta a ser a mulher mais velha do presente. Em outros, além de voltar a narrar no passado, narra sobre ela mesma na terceira pessoa, como se já não fosse mais a mesma menina de antes: “ela não lembra bem se isso aconteceu durante aquela viagem ou alguma outra”.

Explicando, parece confuso, mas lendo, flui.

Pensei aqui agora que parece um pouco um sonho. Pelo menos os meus. Às vezes eu sou eu mesma, às vezes sou outra pessoa – já fui a Julia Roberts! – às vezes me vejo de cima, às vezes o sonho se desenrola com a câmera dos meus olhos. Tem hora que estou no presente e, do nada, corro lá para frente ou volto lá atrás! Acho que por isso às vezes acordo tão cansada.

Bela edição da CosacO que? O amante

Quando? 1984

Quem? Marguerite Duras

Páginas? 85

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