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Equador parte III

Acho que, na verdade, o que me faltava era ânimo para sentar a bunda na cadeira e escrever três diferentes posts para um único livro. O que acontecia é que eu tinha várias ideias, me decidia por uma e ficava com preguiça de elaborar as outras…! Não digo que farei isso sempre, mas gostei da ideia. Quem sabe?

Voltando a Equador, neste terceiro e último post da série vou falar um pouco das ideias sobre relacionamentos que esse livro me suscitou. E para isso vou precisar contar um pouco mais do enredo da obra.

Como já expliquei aqui e aqui, o livro começa no ano de 1905 com o português Luís Bernardo sendo mandado, como ministro, para São Tomé e Príncipe. Digamos que, sua principal missão, seja provar para os ingleses que lá não existe mais escravidão. Se ele vai só fingir ou de fato acabar com ela, já é outra história. O que me convém explicar para este post é que para ter uma opinião definitiva, o britânico David é mandado para aquela colônia remota com sua mulher Ann. E porque ele é enviado para essa remota colônia? Digamos apenas que ele tinha aprontado umas e outras e que ser mandado para lá foi uma espécie de castigo e que Ann teve a chance de escolher acompanhá-lo ou não.

Enfim, lá chegando, não demora muito para que Ann comece a dar em cima de Luís Bernardo. E ele mergulha no romance. Trai a amizade que tinha estabelecido com David e vê sua relação com o amigo desandar e depois… bem, depois descobre que Ann não estava se fazendo de rogada e, além de Luís Bernardo, tinha arrumado outros pretendentes. E que nunca tinha passado por sua cabeça abandonar o marido para ficar com ele.

E por que estou falando disso? Porque fiquei pensando muito se achava que Ann estava ou não fazendo sacanagem com Luís Bernardo já que ela, apesar de dar esperanças, jamais abandonaria o marido e ainda arrumaria outros pretendentes que não ele. A princípio, sim, achei que ela foi meio sacaninha, mas… bom, fui mudando de ideia. Cada um vê apenas aquilo que quer enxergar e acredita apenas naquilo que lhe convém. E se Luís Bernardo não enxergou as verdadeiras intenções de Ann, é porque não queria ver.

imagem post

Esses dias mesmo estava conversando com uma amiga e chegamos a conclusão que por mais que a pessoa esteja falando alguma coisa pra “te enganar” e criar falsas esperanças, no fundo ela dá, sim, sinais que já indicam suas verdadeiras intenções. Não vê quem não quer. Quem nunca ficou com raiva porque fulaninho estava todo-todo, mandando mensagens cheias de intenções para daí uma semana começar a namorar outrem? Quem nunca? E a gente pensa “poxa, porque ele fez isso se não queria nada?”. Provavelmente porque estava entediado e conversinhas moles são divertidas. Ou talvez porque ele ainda não havia se decidido, vai saber. Ele está errado de agir assim? Não.

Existe todo um papo Pequeno princípe “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” e que até parece fazer sentido, mas esses dias vi num blog que, na verdade, trata-se de um “erro de tradução”. No francês a expressão quer dizer que somos eternamente responsáveis por aquilo que mantemos em cativeiro, que aprisionamos. “Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé”. Ou seja, o pequeno príncipe se torna responsável pela rosa a partir do momento que a aprisiona, que a coloca numa redoma, e não por que a tinha “cativado”, ou melhor, “conquistado”. E aqui citarei o blog porque não sei se consigo expressar de forma melhor essa ideia: “não nos tornamos responsáveis por aquilo que cativamos coisa nenhuma, problema de quem ficou cativado, que absurdo isso! [...] Normalmente, a “culpa” por qualquer sentimento é exclusivamente de quem o nutre”.

Claro que a coisa muda totalmente de figura se existe algum tipo de acordo entre as partes e se esse acordo é quebrado. Tipo, se estamos namorando e nos comprometemos a ser fieis, seria uma puta sacanagem sair ficando com qualquer um. Ou se, depois de um término, combinamos que seria difícil manter uma relação de amizade e que por isso seria melhor ficarmos afastados e a pessoa começa a ficar mandando mensagens – que levam a crer que ela quer uma reconciliação – mas depois some novamente. Enfim, são casos e casos. Não acho que existam culpados. A única coisa que acho é que cada um responsável pelo próprio sofrimento. Então, não, eu não fiquei com pena do Luís Bernardo, por ele ter sido ludibriado por Ann. Mas isso eu só consegui decidir depois de pensar um pouquinho. E me reservo o direito de mudar de ideia a qualquer momento!

 

Equador-Companhia-das-Letras-Miguel-de-Souza-Tavares-Bons-Livros-para-LerO quê? Equador

Quem? Miguel Sousa Tavares

Quando? 2003

Páginas? 520

Equador parte II

Dando continuidade a série de posts sobre Equador…

Não quero parecer muito egocêntrica, mas acredito que a época em que vivemos agora é muito importante e de grandes mudanças. De conceitos, de ideias, posições. Tenho a impressão que antigamente as grandes modificações ocorriam em tempos mais espaçados. Em um século aboli-se a escravidão, no oooutro dá-se o direito ao voto às mulheres. Hoje parece que cada ano traz em si uma grande transformação!

E por isso talvez as pessoas antes tivessem mais tempo de assimilação entre uma mudança e outra que, ainda assim, não aconteceram sem lutas, protestos, greves, rebeliões. Porque transformações que vem fácil mudam só a fachada, não as estruturas. Só que se já era difícil consolidar as alterações com tanto tempo para que as pessoas se acostumassem, imagina agora, que elas não param de surgir?

Por essa e por outras considero a frase do autor português Miguel Sousa Tavares, solta pela boca do personagem João, melhor amigo de Luís Bernardo, a melhor do livro Equador: “Todas as éticas são evolutivas: o que hoje é normal, amanhã será horrendo e o que hoje é crime, amanhã será banal”.

A primeira vez que “topei” com a frase – antes mesmo de ler o livro –, achei difícil exemplifica-la, mas basta pensar um pouco para lembrarmos em como a escravidão já foi normal e hoje sabemos ter sido horrenda, e em como o casamento inter-racial já foi crime e hoje é banal. E essa mesma ética da qual fala Luis Bernardo varia não só através do tempo, mas também do lugar.

Em alguns momentos, em alguns lugares, a bebida onde hoje é natural, já foi proibida.  No Brasil era liberado beber e sair por aí com suas carroças, hoje só é possível fazê-lo arriscando-se a perder a carteira e a pegar uma multa pesada. O aborto já foi crime em países como o Uruguai, hoje não é mais – viva Mujica!.

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Mudanças, mudanças, mudanças…

Não sei se acredito de fato numa evolução, que as coisas estão melhores agora do que antes. Mas acredito na transformação constante como busca de algo melhor. Acredito também que as pessoas devem lutar pelas mudanças em que acreditam, assim como contra as transformações em que não acreditam, desde que com argumentos, não ofensas, nem agressões. E desde que saibam que argumentos como “sempre foi assim”, “mas e os bons costumes?”, e “na minha época isso não aconteceria” não são válidos.

A frase de João está aí para provar. E lembrando que o contexto é a ida de Luís para a Colônia de São Tomé e Príncipe para acabar com o trabalho escravo, João continua dizendo assim: “não podes chegar aqui e, em meia dúzia de meses, convencer todos os portugueses que cá estão há gerações, sofrendo desde sempre o que tu sofres há meses e com a contrapartida de, pelo menos, fazerem fortuna na vida, que todo o código de conduta deles, todo o edifício que ergueram e de que vivem está errado, porque tu trazes de Lisboa decretos ou instruções ou acordos secretos com a Inglaterra a que eles têm de passar a obedecer, de um dia para o outro. Tu podes ter razão, mas isso requer tempo, Luís. Tempo e persuasão”.

Equador-Companhia-das-Letras-Miguel-de-Souza-Tavares-Bons-Livros-para-LerO quê? Equador

Quem? Miguel Sousa Tavares

Quando? 2003

Páginas? 520

Equador parte I

Sempre que escrevo um post para o blog fico pensando em quantos diferentes outros posts sobre o mesmo livro eu poderia ter escrito. Às vezes até fico na dúvida entre abordar um assunto ou outro, outras até faço uma miscelânea de assuntos. Mas a verdade é que, na grande maioria das vezes, acabo escolhendo um único aspecto para analisar, abordar, comentar ou divagar. Porque, mesmo ficando um pouco na dúvida, nunca consigo elaborar mais de um raciocínio do início ao fim. Tenho muitas ideias vagas, mas apenas uma que serviria como post. Dessa vez não. Equador me suscitou três pensamentos independentes e que poderiam ter sido tirados de três livros diferentes.

É por essa razão que decidi abrir precedentes aqui no pulaumalinhaparágrafo – afinal nada está tão fixo que não se possa mudar – e fazer três posts sobre o mesmo livro. No caso, Equador.

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Acho engraçado quando um leio um livro cujo autor não conheço a cara e depois me surpreendo com o seu rosto…não era bem assim que eu imagina Miguel Sousa Tavares enquanto lia Equador

 

Sempre que leio livros como esse volto a pensar em como os professores do ensino fundamental e médio aproveitam pouco a literatura em sala de aula. Bom, pelo menos era o que acontecia quando eu estava na escola: professores – com algumas exceções – insistindo em aulas monótonas de falatório e muita coisa no quadro. Se na minha época já era difícil manter a atenção dos alunos, fico imaginando agora, que a maioria deles carrega um mundo de informações – e distrações – no bolso da calça, no formato de um celular.

Acho mesmo que o ensino deveria ser todo reformulado (e acho que isso talvez esteja começando a acontecer, com a adoção do Enem, por exemplo, apesar de todas as falhas que ele ainda possa ter. Só de prezar por um conhecimento mais amplo e lógico em detrimento das fórmulas que eu nunca decorei, já acho válido). Acho o ensino de aptidões como a interpretação de textos – e de situações e da vida -, o pensamento lógico e a ética muito mais importantes do que a fórmula de multiplicação de matrizes.

Mas enquanto isso não acontece de fato, a utilização de projetos transversais nas escolas pode ajudar bastante. E aí entra o livro Equador, que tem Portugal e a colônia de São Tomé e Príncipe como cenário básico. O ano é o de 1905. Luís Bernardo, personagem principal, se torna ministro dessas ilhas sob a linha do Equador e tem a missão de descobrir a real situação dos trabalhadores das plantações de cacau. Ele precisa provar para os ingleses que a escravidão nas colônias não existem mais e que os milhares de negros trazidos da Angola estão ali, trabalhando de sol a sol, ganhando quase nada e vivendo em palhoças, por que querem. De cara Luís Bernardo ganha dezenas de inimigos: os administradores das roças que não querem que o que sempre deu certo e esteve certo mude agora. Os negros não sempre estiveram ali a trabalhar? Por que deveria ser diferente agora?

Não precisa nem ir muito mais fundo para mostrar que o livro é um prato cheio para as aulas de história. Os relatos descritivos do narrador sobre a fauna e o clima do lugar poderiam também facilmente serem trabalhados nas aulas de geografia. E aprofundando um pouco mais no tema da escravidão, temos muitos assuntos para aulas de filosofia ou sociologia. O constante embate de Luís Bernado com os administradores das roças cria dilemas dentro do próprio ministro, que não sabe muito bem que postura assumir. Trata-se de um tempo de mudanças (não só em relação a mudança do trabalho escravo para o trabalho assalariado, mas também de uma passagem da monarquia, que está se esfarelando, para uma possível república portuguesa) e as pessoas tendem a criar resistência contra mudanças…mas sobre isso eu vou falar no post seguinte.

Para sair de assuntos mais polêmicos, o livro também é excelente para abordar as diferenças linguísticas entre o português de Portugal e o português brasileiro, já que, por opção da editora, manteve-se a grafia do português da terrinha.

Ah, e a história ainda tem trechos picantes e cenas de sexo. Nada demais, mas o suficiente para atrair a atenção de adolescentes, garanto.

Equador-Companhia-das-Letras-Miguel-de-Souza-Tavares-Bons-Livros-para-LerO quê? Equador

Quem? Miguel Sousa Tavares

Quando? 2003

Páginas? 520

O tempo e o vento

Esse pode ser um retrato da decepção ou do orgulho. 2013 dirá

 

Uma notícia recente encheu meu coração de expectativas e temores: em breve teremos uma adaptação cinematográfica de uma das obras mais grandiosas que já li – O tempo e o vento. E não me refiro apenas a tamanho – são mais de mil páginas, divididas em três partes, sete livros – mas também ao número de personagens e gerações que a história perpassa e na extensão histórica que o livro cobre – da formação do estado do Rio Grande do Sul, em meados de 1680, até o fim do Estado Novo, 1945. Sem contar o tempo gasto para que Érico Veríssimo publicasse a obra completa.

Foi quase um ano da minha vida acompanhando de perto os mais de 200 anos da história das famílias Terra, Cambará e Amaral. Só de lembrar da transformação da cidadezinha de Santa Fé, onde se passa grande parte da história… O alargamento das ruas, a chegada dos primeiros automóveis, a inauguração dos primeiros clubes. A paisagem rural que, lentamente, dá lugar ao cenário urbano.

Acho que é o livro que reúne mais dos meus personagens preferidos. Não só o muito conhecido Capitão Rodrigo, mas também Bibiana Terra que acompanhei da infância até velhice, e Bolívar Cambará, que pena nas mãos de Luzia Silva, são três dos meus favoritos.

Enfim, dá pra entender o porquê da minha grande expectativa e também do meu grande medo de que essa história linda e cheia de personagens fortes seja arruinada ao ser transposta para o cinema.

As filmagens foram recentemente finalizadas e a previsão é de que a produção chegue às telas em 2013.  Foram mais de dois meses de trabalhos que se dividiram, principalmente, entre Bagé, onde foi construída a vila cenográfica de Santa Fé; Candiota, locação das cenas de batalha; e Pelotas, que teve os seus antigos casarões transformados em set.

A direção é de Jayme Monjardim – medo? – e alguns dos atores envolvidos são: Thiago Lacerda (como o certo Capitão rodrigo), Marjorie Estiano (Bibiana na idade adulta), Fernanda Montenegro (Bibiana mais velha) e Cleo Pires (Ana Terra quando jovem).

Lembrando que na minissérie de 1985, foi sua mãe, Glória Pires, quem interpretou o papel

 

Aproveitando que estamos falando de Érico, esses dias trombei com esse trecho de uma entrevista feita por Clarice Lispector para o Veríssimo que me identifiquei muito:

“-Érico, por que você acha que não agrada aos críticos e aos intelectuais?

-Para começo de conversa, devo confessar que não me considero um escritor importante. Não sou um inovador. Nem mesmo um homem inteligente. Acho que tenho alguns talentos que uso bem…mas que acontece serem os talentos menos apreciados pela chamada “crítica séria”, como, por exemplo, o de contador de histórias. Os livros que me deram popularidade, como “Olhai os Lírios do Campo”, são romances medíocres. Nessa altura me pespegaram no lombo literário vários rótulos: escritor para mocinhas, superficial etc. O que vem depois dessa primeira fase é bastante melhor mas, que diabo! pouca gente (refiro-me aos críticos apressados) se dá ao trabalho de revisar opiniões antigas e alheias. Por outro lado, existem os grupos. Os esquerdistas sempre me acharam acomodado. Os direitistas me consideram comunista. Os moralistas e reacionários me acusam de imoral e subversivo. Havia ainda essa história cretina de norte contra sul. E ainda essa natural má vontade que cerca todo o escritor que vende livro, a ideia de que best-seller tem de ser necessariamente um livro inferior. Some tudo isso, Clarice, e você não terá ainda uma resposta satisfatória à sua pergunta. Mas devo acrescentar que há no Brasil vários críticos que agora me levam a sério, principalmente depois que publiquei “O Tempo e O Vento”. Bons sujeitos!”

***

Trecho da entrevista retirado daqui

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Blog do filme aqui

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Um desabafo: se você leu apenas Um certo capitão Rodrigo ou Ana Terra, peloamordedeus, vá ler o resto antes de falar que leu O tempo e o vento! O que você leu foi, na verdade, apenas um dos capítulos da primeira parte da trilogia…que a editora resolveu lançar separadamente depois do enorme sucesso da minissérie da Globo! Não se deixe ludibriar! Além de ser ruim pra você, que está perdendo todo o resto da história, é revoltante pra quem leu a obra toda! Humpfh!

Quem? Érico Vérissímo

O que? O tempo e o vento (a saga é dividida em três partes: O continente, O retrato e O Arquipélago. Sendo que, pelo menos na versão que eu li, a primeira parte é composta de dois livros, a segunda de mais dois livros e a terceira, três livros. Sete livros no total).

Quando? Originalmente, a primeira parte – O continente – foi lançada em 1949. O retrato, dois anos depois, em 1951. A última parte – O arquipélago-, foi publicada muitos anos depois, em 1962. Érico se recuperava de um ataque cardíaco e galera já estava descrente que ele conseguiria publicar essa terceira parte.

Páginas? Putz, tá osso de contar. Digamos que os sete livros, enfileirados, ocupe uns 30 centímetros da minha estante.

Os filhos da Terra – parte 2 de 5

2. O vale dos cavalos

 

Agora Ayla está sozinha.

No primeiro volume da série, Jean M. Auel nos apresenta os hábitos e costumes dos Neandertais, seres que ocuparam a terra há milhares de anos. A convivência de Ayla – um exemplar Homo sapiens – com Neandertais é o gancho usado pela autora para revelar todas as diferenças – e porque não, semelhanças – entre as espécies. Com o desenrolar do romance, as diferenças se tornam maiores e insustentáveis e Ayla parte em busca dos seus semelhantes.

Por muitas páginas, Ayla viaja sozinha por um planeta muito diferente do nosso. É a desculpa ideal para que, dessa vez, Jean nos revele a paisagem desse planeta hoje desconhecido. Ela descreve tudo: as plantas, os animais, o clima, de uma maneira muito agradável e não cansativa.

Se não me engano, A Era do gelo se passa na mesma época que a saga Os filhos da terra, e apesar de não ter imagens, o livro consegue ilustrar muito bem o período

Mas o mais interessante mesmo é a maneira que a autora tem de contar como grandes evoluções e descobertas da humanidade aconteceram. É claro que a descoberta de uma maneira mais rápida de fazer fogo ou da domesticação e posterior utilização de animais em proveito próprio não foi feito de uma única pessoa ou de um mesmo povo. Provavelmente, vários povos fizeram descobertas como essa concomitantemente e anos se passaram até que essas e outras descobertas fossem compartilhadas.

Mas em Os filhos da terra, Jean utiliza Ayla para demonstrar como todas essas descobertas devem ter acontecido. Jean narra o modo como, quase sem querer, Ayla adota um potro, torna-se amiga dele e, por consequência, começa a utilizá-lo em suas funções diárias, para caçar e carregar a caça abatida, por exemplo. Parece uma coisa muito óbvia para quem tem cachorro, gato, papagaio e periquito como animais de estimação, mas imagina a diferença que isso não deve ter feito? Aliás, no próximo volume da série, Ayla domestica um lobo. É o pontapé inicial para os nossos cãezinhos de estimação.

É muito gostoso imaginar como todas essas evoluções aconteceram e Jean M. Auel é capaz de nos transportar para o exato momento em que elas se desenrolaram.

Outra coisa muito importante acontece no segundo volume da saga. Jean M. Auel nos apresenta um novo exemplar de Homo Sapiens: Jondolar. É agora que vamos conhecer melhor os hábitos dos Homo Sapiens, principalmente no que diz respeito a relacionamentos.

 Continua…

Quem? Jean M. Auel

O que? O vale dos cavalos

Quando? A edição que eu li, da best bolso, é de 2008, mas não recomendo muito. É cheeeio de erros de digitação e similares!

Páginas? 677

Os filhos da terra – Parte 1 de 5

1. Ayla – a filha das cavernas

Você consegue imaginar como era a terra, há muitos, muitos anos? Numa época em que grande parte do planeta era coberta de gelo e em que Homo sapiens – que deram origem a nós – coexistiram com neandertais? Consegue imaginar como eles se comportavam, como viviam e se comunicavam? O que comiam, como caçavam e como se locomoviam?

A discussão se os neandertais são ou não humanos é extensa, mas é certo que todos nós temos traços neandertais e que Homo sapiens e neandertais conviveram e se misturaram. Mas isso também é tema para outro post

A difícil tarefa foi muito bem executada por Jean M. Auel. Mas ela não apenas imaginou como esse ambiente seria. Depois de anos de pesquisas arquelógicas e históricas, de visitar muitas bibliotecas e conversar com diversos pesquisadores, Jean conseguiu transformar o que seriam páginas e mais páginas de tediosas pesquisas em um ótimo romance ambientado na Europa pré histórica.

É possível que, ao romancear a coexistência entre Homo sapiens e neandertais – através da história da pequena Ayla, representante dos Homo sapiens, que perde sua família num terremoto e é adotada por um clã de neandertais – Jean M. Auel tenha cometido alguma incoerência histórica. Mas acho improvável. Tudo é tão descrito nos mínimos detalhes que é difícil acreditar que haja ali alguma incoerência.

O melhor é a maneira como isso é feito. A autora não para para (ai, nova reforma ortográfica, assim você me mata) simplesmente descrever como os neandertais eram mais baixos e fortes, como eles não se comunicavam verbalmente ou como seus utensílios eram mais simples e menos detalhados. Essas coisas você vai descobrindo com o decorrer da história e da convivência de Ayla com o clã – como eles são chamados no livro.

Ayla – A filha das cavernas, é o primeiro volume de cinco da saga Os filhos da terra. Nesse primeiro livro, vemos como acontece a adaptação de Ayla no meio dessas pessoas – e aqui existe uma grande discussão para definir se os neandertais podem ou não serem chamados assim – e presenciamos de perto como eles viviam, como eram seus rituais e sua hierarquia.

No final do livro, algo acontece e Ayla tem que partir. E é no volume seguinte, O vale dos Cavalos, que conhecemos um pouco melhor a paisagem da Europa pré-histórica e o como Ayla vai se virar, sozinha, nesse cenário. Mas isso é assunto para outro post…

Continua…

Quem? Jean M. Auel

O que? Ayla – a filha das cavernas

Quando? A edição que eu li, da best bolso, é de 2008, mas não recomendo muito. É cheeeio de erros de digitação e similares! Já a primeira edição do livro foi lançada em 1980.

Páginas? 613

1968 – o ano que não terminou

O que mais estou gostando nesse blog – além de poder falar, falar e falar – é o fato de não precisar me ater a nenhum gancho jornalístico para comentar um livro. Não preciso esperar o aniversário de morte de determinado autor ou a data de seu centésimo aniversário se estivesse vivo. Tampouco pequenos detalhes como o lançamento de um livro – e não estou falando isso só porque o Millôr Fernandes morreu por esses dias e eu nunca li nenhum livro dele para aproveitar o gancho.

A única coisa que me prende é meu próprio ritmo de leitura e é por isso que hoje vou falar de 1968 – o ano que não terminou. O que se mostra muito pertinente, pois, afinal, nada mais pertinente do que falar de um ano que ainda está por aí.

O que não me saía da cabeça enquanto lia o livro de Zuenir Ventura era “porque diabos a gente não lê uma coisa dessas na escola?”. Quantos bimestres foram gastos – muitas vezes em vão – por professores de história Brasil afora na tentativa de explicar o que se sucedia no Brasil em 1968, a conjuntura que levou ao Ai5 e posteriores consequências? Muitos semestres seriam poupados com a leitura de um livro como o de Zuenir.

Se você está pensando: “tá, mas quantos anos tem essa pessoa agora? Um menino de 15, 16 anos talvez não desse conta da leitura”, é provável que esteja equivocado. A escrita é muito simples, sem ser simplória, e narra com muita emoção momentos históricos. Claro que o livro é todo de momentos históricos, mas agora me refiro àqueles momentos que são narrados e rememorados sempre, como a passeata dos cem mil. O que me faz lembrar que a não ficção pode ser tão ou mais emocionante que mundos mágicos e universos encantados.

Dizem as más línguas que não tinha realmente 100 mil pessoas na passeata, mas pouco importa, o impacto com certeza ultrapassa a marca

Quando critiquei o fato de Pequena Abelha ser um livro todo trabalhado para te fazer chorar, também disse que gosto mesmo é daqueles livros que fazem chorar pela sinceridade da narração, quase sem querer. 1968 é um grande exemplo disso. Conhecer mais de perto passagens não muito memoráveis de um passado não tão distante pode liberar algumas lágrimas e apertar algumas gargantas.

Leitura essencial para quem quer entender um pouco mais a história do Brasil, pra quem gosta da boa escrita, para quem quer apreciar como escreve um bom jornalista.

Quem? Zuenir Ventura

O que? 1968 – O ano que não terminou

Quando? Originalmente publicado em 1989. A versão aí do lado é de 2008

Páginas? 267

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