Mundo por terra

Esse livro é bem diferente de tudo que já li. Já disse num post anterior que, para um livro ser bom, basta seguir uma regra básica: ter uma boa história e ser bem escrito – lembrando que bem escrito não diz respeito apenas a regras gramaticais.

 Não é o caso deste livro de viagem. Definitivamente, não é lá muito bem escrito. Vários pequenos erros e vícios de linguagem permeiam a história e em alguns momentos cheguei a ficar um pouco irritada. Mas a história era tão boa e interessante que, sempre que eu tinha vontade de parar de ler por conta da escrita repetitiva, eles entravam num país novo e eu queria tanto saber o que aconteceria que continuava a leitura.

É bem provável que a falta de traquejo esteja ligado ao fato de Roy Rudnick e Michelle F. Weiss não serem exatamente escritores. São apenas duas pessoas que, a bordo de um Land Rover personalizado, apelidado de “Lobo”, viajaram por 1033 dias, passando por cinco continentes, 60 países. E que resolveram relatar isso tudo num livro.

O livro foi apenas um dos produtos da viagem. Outros foram a exposição de fotos e objetos da viagem, incluindo o Lobo, que tem rodado por algumas cidades do Brasil, e o site.

Como poderia um relato de uma viagem tão grandiosa como essa não se tornar uma boa história? Se já não fosse bom o suficiente por contar segredos e curiosidades de países tão diferentes entre si – 60 países! -, ainda é muito verdadeiro no que diz respeitos as dificuldades de transitar por culturas diferentes, confinado num pequeno espaço – mesmo que muito bem equipado – e com uma única pessoa do lado.

Apesar de ambos assinarem a obra, é de Roy a ideia inicial. E é ele também quem narra a viagem. Um dos pontos mais interessantes é que ele narra a aventura desde quando ela não passava de uma ideiazinha martelando no fundo da cabeça, passando pelo momento em que ele tem o click: “É agora ou nunca. Agora!”, convence sua namorada a acompanhá-lo, avisa toda a família, é tachado de louco, planeja, planeja, planeja e parte para uma viagem de mais de mil dias.

Quem nunca quis fazer uma coisa dessas? Uma dessas coisas que a gente não tem coragem de fazer porque vai interromper nossa graduação, porque a gente não quer largar o emprego pelo qual batalhamos tanto, porque temos um relacionamento, porque temos prestações para pagar?

Para Roy, o click definitivo que o fez finalmente realizar o sonho de viajar pelo mundo num carro foi uma conversa com um estranho qualquer. Quando Roy contou para esse estranho que planejava fazer uma grande viagem daqui uns dez anos, o cara disse: “Dez anos? Você está maluco! Nesse tempo tudo vai mudar. Você vai casar, logo terá filhos, eles terão que ir para escola, suas responsabilidades na empresa aumentarão consideravelmente, ou então partirá para a construção do seu próprio negócio. Se você quer mesmo realizar essa volta ao mundo, faça já, não espere mais”.

E ele vai. Para tudo, e vai. No fim do livro ele justifica a viagem, dizendo que com certeza aprendeu milhões de coisas que o tornaram um profissional melhor, uma pessoa melhor. A mesma coisa com Michelle, que interrompeu o curso de arquitetura para viajar e que apesar do atraso para formar, pode aprender muita coisa durante a jornada que a tornaram uma arquiteta melhor.

Muito válido, mas será que uma viagem dessa preciso mesmo ser justificada? Porque ela não pode valer a pena por si mesma?

Quem? Roy Rudnick e Michelle F. Weiss

O que? Mundo por terra – uma fascinante volta ao mundo de carro

Quando? 2011

Páginas? 383

Anúncios

7 comentários sobre “Mundo por terra

  1. Repito: Sou da vibe do segundo parágrafo: as vezes a leitura parece chata mas a história deve ser tão boa que eu vou sempre ficar com curiosidade de e querer ler mais…!

    Na verdade, nesse caso, a história deve ser tão boa que fica cada dia mais interessada no livro! Hahahahah! E seu texto ficou excelente: faz as pessoas quererem ler o livro, mas sem criar expectativas!

  2. Stephanie, olha que coincidência…. eu conheço esse casal.
    Na realidade o Roy é amigo do meu namorado e nós nos conhecemos rapidamente, eu conversei diretamente com a Michelle, que me contou que a viagem coloca tudo à prova, inclusive o relacionamento.
    Eu ainda não li o livro, só as primeiras páginas por curiosidade, pois meu namorado está lendo e deu uma parada no meio. Quando ele terminar vou ler.
    Concordo com o que você disse em relação à escrita, pois pela pequena parte que eu li também achei isso, mas é muita história né?

    A produção e edição do livro são independentes e fiquei feliz que mesmo assim o autor está conseguindo “espalhar” a obra.
    No Brasil não é fácil ser autor né?

    Adorei.

    beijos.

    1. Que coincidência!

      Mas então, de onde você é? São Bento do Sul? Curitiba?
      Minha família por parte de pai é de São Bento e também conhece os dois.
      Assim que fiquei conhecendo o livro…ganhei de presente de uma tia minha de SBS!

      É muita história mesmo. e histórias boas!

      1. Eu sou de Curitiba, mas conhecemos o casal do paraquedismo.
        O Roy é instrutor de paraquedismo e o meu namorado é paraquedista.
        Eles frequentavam a mesma área em Governador Celso Ramos (agora mudou para São Francisco do Sul)….
        que interessante….

        Outro dia encontrei o livro na Livraria Cultura… achei muito bacana isso.

  3. Olha, que legal! Esse mundo é pequeno demais mesmo!
    Eu morei em Curitiba por um semestre…Adorei a cidade!

    É muito legal que eles tenham conseguido fazer o livro chegar às livrarias mesmo. Com certeza é uma história que vale a pena ser lida!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s