Precisamos falar sobre o Kevin

O assunto, a inspiração, o tema do livro, que deveria ser exceção, um evento raro, uma infelicidade esporádica, banalizou-se tanto que, antes mesmo que eu pudesse terminar a leitura, aconteceu mais uma vez. Mais uma vez nos EUA, mais uma vez por um jovem, mais uma vez aparentemente sem motivos (término de namoro, exclusão social, jogos violentos, pais desnaturados?), várias pessoas são mortas sem nem saber por quê.

Apesar do tema banalizado, há uma diferença entre Lionel Shriver e outros que tentam contar a história de adolescentes que, armados, invadem escolas, cinemas, estádios e matam dezenas. Em Precisamos falar sobre o Kevin, a personagem Eva, mãe do menino que viria a se tornar um assassino, resolve, após o fatídico evento, relembrar todos os momentos que, de uma forma ou de outra, culminaram na quinta-feira, dia que seu filho matou onze pessoas com flechas atiradas por uma besta. O romance é um compilado de cartas que Eva manda ao seu marido Franklin cerca de um ano após o ocorrido.

Ela vai bem lá atrás e começa a narrar a história desde quando sua família ainda se resumia a ela, Franklin e dois sentimentos: o dele, de ter um filho, e o dela, de arrependimento por uma gravidez que ainda nem tinha acontecido. Eva continua a narração contando a alegria dele pela gravidez e o ressentimento dela em se policiar durante o período,  a emoção dele no nascimento e o desapontamento dela ao ter o peito negado, e várias outras emoções dicotômicas, já que para Franklin Kevin era um menino dócil e quase alegre e, para Eva, um menino quase incompreensível.

O livro foi recentemente adaptado para o cinema com Tilda Swinton no papel de Eva. Ainda não assisti, mas depois da leitura, fiquei com muita vontade

Claro que, por mais que Eva afirme a busca pela imparcialidade, sua narrativa está contaminada pelo evento que já aconteceu. Por isso, é difícil saber se Kevin é realmente, desde a infância, o menino apático e cruel desenhado por Eva. Será que ele era mesmo o neném que recusou o peito de Eva de propósito, que chorava sem nenhum motivo aparente, a não ser o de importuná-la, que usou fralda até os seis anos por pirraça, que fazia questão de não demonstrar interesse por nada?

Apesar de, em vários momentos da narrativa, se culpar por não ter se esforçado o suficiente, é possível que Eva utilize-se da mea culpa apenas para ganhar credibilidade para narrar os casos de crueldade que Kevin vinha praticando desde a infância.

Pra mim, a grande questão que fica é: será que algumas pessoas simplesmente são o que são ou são frutos da árvore onde nasceram? Kevin era um menino fadado a cometer um massacre ou poderia ter tido um destino diferente se tivesse tido outro pai, outra mãe, outra família, se tivesse nascido noutro bairro, cidade ou país?

No mais, só posso dizer que tinha tempos que eu não ficava tão fissurada assim num livro. Desde o princípio já é sabido que Eva conta a história de um menino que praticou um massacre em sua escola, mas vários fatos da história são escondidos e revelados aos pouquinhos. E por mais que exista aquela pulga atrás da orelha, é só nas páginas finais que temos importantes detalhes revelados.

Ah, o livro é completamente ficcional.

O que? Precisamos falar sobre o Kevin

Quando? No Brasil, 2012. Nos EUA, 2003.

Quem? Lionel Shriver (ganhadora do prêmio Orange, para escritoras de língua inglesa)

Páginas? 463

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7 comentários sobre “Precisamos falar sobre o Kevin

  1. Olá,

    eu não li o livro, mas assisti o filme. Achei a psicologia da historia muito interessante, mas não gostei do filme, não.
    Inclusive, vou fazer resenha dele para o blog….
    Como você ficou tão bem impressionada com o livro, não sei qual será sua reação em relação ao filme, mas me conta depois de assistir, então.

    Beijos,
    Thai

  2. Lucas cara de pau! Vamos fazer o seguinte: você me devolve os três livros da saga Millenium junto com os três filmes suecos – como prometido – e eu te empresto o Precisamos falar sobre Kevin e em troca você baixa esse filme pra mim também! hahahaha

    Aí eu assisto e conto pra você, Thai, o que achei do filme! =)

  3. Lucas, cara de pau e meia!!! que barganha é essa?!!???
    desse jeito acho que consigo o livro emprestado antes de você.
    Sté, ao contrário do que disse, seus posts estão cada vez melhores, atiçam na hora minha vontade de ler…
    tô na fila!!!!
    bj.

  4. muito legal seu blog! fiquei com vontade de ler todos os livros que você comentou! hahaha
    já até me cadastrei no leituradiaria.com, foi uma ótima dica!
    parabéns!

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