Agora é que são elas

Dei um passinho em direção à minha abstração literária com esse livro. Terminá-lo foi um desafio pessoal iniciado nas páginas não lidas de Catatau, primeiro romance escrito por Leminski e minha primeira tentativa de ler Leminski. Tentativa encerrada nas primeiras cinco, seis páginas. Na verdade, tentativa paralisada. Depois de ficar completamente perdida, resolvi que ainda não estava madura o suficiente.

Nem estava pensando em retomar com Leminski até esbarrar em Agora é que são elas. Foi tipo assim: “oh, o Leminski tem outro livro, deixa eu ver de qualé que é”. E era bom! Me amarrei logo de cara com as primeiras frases. Levei e pensei, é agora que leio Leminski.

Depois fui descobrir que minha vitória em Agora que são elas nem vale muito em relação à Catatau, pois são estilos bem diferentes. Catatau é um blocão de texto, sem parágrafo, nada. Uma viagem muito louca de um Déscartes que vem parar no Brasil. Já Agora é que são elas é uma viagem dividida em muitos parágrafos, pequenos trechos e capítulos – ainda bem.

Se segura aí, Leminski, que um dia ainda chego à Catatau!

 

Continua não sendo uma história linear, mas já é muito mais fácil enveredar pela linha de raciocínio do autor. E é muito, muito divertido. E as frases são tão bem construídas que dá vontade de chorar – quando não se está rindo. Elas parecem jogadas ao acaso, mas com certeza foram trabalhadas com esmero até tomarem a forma definitiva.

Me lembrou muito As Cosmicômicas, do Calvino, não só pelas palavras inventadas com excesso de consoantes, mas também pelas passagens de luta entre os gases de Canopus, os warhoos e os seres gasosos dos pântanos de Achernar, agora comários de Quadrak.

Vou pular a parte pornográfica – ah, tem isso também, Leminski tem uma boca suja muito boa, nunca vi palavrões e frases “pornográficas” tão bem utilizados – mas vou transcrever as frases que me fizeram levar o livro pra casa:

“[…]chegue, caprichei, relaxei, lembrei tudo o que tinha aprendido em Kant e Hegel, repassei toda a teoria dos quanta, a morfologia dos contos de magia de Propp, o voo do 14-bis, cheguei e não perdoei:

-Tem fogo?”

O que? Agora é que são elas

Quando? 1984, pouco antes da morte do escritor, em 1989

Quem? Paulo Leminski

Páginas? 217

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