as intermitências da morte

Já diziam, ou digo eu, que o primeiro Saramago a gente nunca esquece. Tanta gente já tinha me falado tanta coisa dos livros desse purtugueis que eu tinha até um medozinho de ser uma leitura complicada, que demandasse grande concentração e da qual eu não conseguiria extrair muita informação, mas pelo contrário, sim, é um estilo diferente, mais próximo ao ritmo da fala, ou melhor, do ritmo do pensamento, do que da escrita propriamente dita, e por isso mesmo muito fácil de entender.

Cara do Saramago de quem liga pro que os críticos dizem

Esse deve ser um assunto constantemente associado ao escritor. E acho que, de certa forma, ele mesmo faz referência a isso em as intermitências da morte. Explicando: no livro, num determinado país, numa determinada passagem de ano, a morte deixa de existir, pelo menos para os humanos. Mas depois de meses de mudanças e reviravoltas ocasionadas pela ausência da morte, eis que essa, a morte, decide voltar à ativa. E para não pegar ninguém desprevenido, manda uma carta, de próprio punho escrita, explicando sua decisão. E esse bilhete, exaustivamente publicado por todos os jornais, vira fonte de estudos, interpretações e críticas, uma bastante dura até. E Saramago deve ter recebido críticas parecidas ao longo dos anos:

“Segundo a opinião autorizada de um gramático consultado pelo jornal, a morte, simplesmente, não dominava nem sequer os primeiros rudimentos da arte de escrever. Logo a caligrafia, disse ele, é estranhamente irregular, parece que se reuniram ali todos os modos conhecidos, possíveis e aberrantes de traçar as letras do alfabeto latino, como se cada uma delas tivesse sido escrita por uma pessoa diferente, mas isso ainda perdoaria, ainda poderia ser tomado como defeito menor à vista da sintaxe caótica, da ausência de pontos finais, do não uso de parêntesis absolutamente necessários, da eliminação obsessiva dos parágrafos, da virgulação aos saltinhos e, pecado sem perdão, da intencional e quase diabólica abolição da letra maiúscula, que, imagine-se, chega a ser omitida na própria assinatura da carta e substituída pela minúscula correspondente”

Ao que a própria morte responde:

“[…] as palavras, se não o sabe, movem-se muito, mudam de um dia para o outro, são instáveis como sombras, sombras elas mesmas, que tanto estão como deixaram de estar, bolas de sabão, conchas de que mal se sente a respiração, troncos cortados, aí lhe fica a informação, é gratuita, não cobro nada por ela, entretanto preocupa-se com explicar bem aos seus leitores os comos e os porquês da vida e da morte[..]”

Vai saber se essa não é uma conversa que Saramago gostaria de ter tido com seus críticos. Ou posso estar viajando também.

Apesar do amor que, com esse livro, começou a brotar entre Saramago e eu, gostei mais da primeira parte do livro – de como seria um lugar sem morte e de como ela é sim necessária – do que da segunda, onde a morte em si, e não a sua ausência, é a personagem principal. Nessa parte – aliás, eu que estou dividindo em partes, essa divisão não existe no livro – a morte está encucada com uma morte que deveria ter acontecido mas, ironia das ironias, não aconteceu e vai atrás do predestinado. Mas não deixa de ser uma leitura e tanto.

O que? as intermitências da morte
Quando? 2005
Quem? josé saramago
Páginas? 207

Anúncios

Um comentário sobre “as intermitências da morte

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s