Uma duas

Meu primeiro encontro com Eliane Brum foi com A vida que ninguém vê. Livro que reúne o que alguns chamam de reportagens, outros de crônicas – e que pode ser classificado como jornalismo literário -, em que a autora retrata a vida e pequenos acontecimentos dos socialmente invisíveis. A proposta é bonita, mas achei o livro um pé no saco. A linguagem é bastante poética, mas lembro que na época achei uma grande forçação de barra. Aquela coisa especialmente escrita e pensada nos mínimos detalhes para tocar e fazer chorar, do tipo que já retratei num post anterior.

Minha impressão sobre Eliane Brum começou a mudar quando a vi em Ouro Preto, no Fórum das Letras, durante o ciclo de palestras Bravo! de jornalismo cultural. Pelo jeito que ela falava e se comportava, pude perceber que cometi um equivoco. Ela provavelmente não havia forçado a barra ao retratar casos como o do portador de deficiência mental Israel em A vida que ninguém vê. Aquele era simplesmente o modo como ela realmente via as coisas e seus retratados.

Como jornalista, Eliane é super premiada. Como escritora, também. Não é a toa que A vida que ninguém vê ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro reportagem

Não mudou o fato deu não ter gostado do livro, mas fez com que o meu respeito por ela aumentasse e com que eu lesse as crônicas dela no site da Revista Época com menos criticismo – aliás, mesmo que eu não concorde com todas suas opiniões, são sempre crônicas muito pertinentes, bem argumentadas e gostosas de ler, olha aqui. Afinal, o livro era sincero, uma das grandes qualidades que todos os livros deveriam ter.

Enfim, isso tudo pra dizer que, quando comecei a ler Uma duas, estava tomada por sentimentos ambíguos. Um pouco de desconfiança, mas muita vontade de gostar. Comecei sem conseguir emitir opinião, mas com o decorrer das páginas fui me sentindo meio mal. A relação bastante doentia entre mãe e filha retratada nessa que é a primeira ficção de Eliane Brum me deixou também um pouco doente. Tipo de história um pouco nauseante, que mexe lá dentro, desenterra sentimentos escondidos.

Fiquei sem saber se queria acabar rápido porque o livro era bom ou se porque era horrível. O livro era horrível e por isso mesmo bom.

O que? Uma duas

Quando? 2011

Quem? Eliane Brum

Páginas? 175

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4 comentários sobre “Uma duas

  1. Fiquei curiosa com esse livro. EU tenho uma relação parecida com a Eliane Brum. Gosto muito das coisas que ela escreve, mas com certa desconfiança. Ela trasborda muitos prováveis limites de outros jornalistas. Agora, como escritora ainda não sei. Adorei a siceridade de seu post, Sté.

  2. Comecei por este, mais por curiosidade – foi um pedido de natal – do que interesse e… DETESTEI!
    Me fez mal e não acredito que tenha desenterrado nada escondido. É pesado, é triste, é doentio. Tipo de apelação sem propósito que não leva a nenhuma reflexão, só faz mal.
    Quem sabe para exorcizar seus próprios demônios? aí mais valor teria se não fosse ficção.

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