A lentidão

Não identifiquei nenhuma grande característica literária em A lentidão. O estilo narrativo, os personagens, a maneira de contar a história. Nada me causou grande furor. Mas o tema em si me fez pensar um bocado…Claro que o livro não é apenas sobre isso, mas foi o que mais me chamou atenção é ainda o que dá nome à obra.

“Por que o prazer da lentidão desapareceu? Ah, para onde foram aqueles que antigamente gostavam de flanar? Onde estão eles, aqueles heróis preguiçosos das canções populares, aqueles vagabundos que vagavam de moinho em moinho e dormiam sob as estrelas? Será que desapareceram junto com as veredas campestres, os prados e as clareiras, com a natureza? […] Em nosso mundo, a ociosidade transformou-se em desocupação, o que é uma coisa inteiramente diferente; o desocupado fica frustrado, se aborrece, está constantemente à procura do movimento que lhe falta.”

Tem aquelas coisas: você não sabe se está batendo o dedinho toda hora justamente porque ele está machucado ou se, como ele está machucado, toda vez que você bate, sente. Não sei se tenho falado tanto no assunto trabalho/ócio que ele começa a me aparecer em todos os lugares ou se, por estar tão envolvida nesse assunto ultimamente, começo a prestar mais atenção e a percebê-lo em tudo o que me cerca.

Não sei porque, mas mesmo depois de já ter lido algo dele, mas antes de ver alguma foto, achava que Kundera era uma mulher! Será porquê que tive essa impressão, hein?!

Fato é que tenho discutido o assunto com muitas pessoas diferentes e os papos têm convergindo para um ponto comum: trabalhamos demais, desnecessariamente. Quantas de nossas horas não são gastas com tarefas inúteis? Tarefas que só existem mesmo para nos manter ocupados? Ocupados para quê? Para não pensar?

Cria-se um ciclo de tarefas que são úteis apenas para servir de combustível para outras tarefas, inúteis, criando-se assim um grande ciclo de inutilidades.

Exemplo: digamos que você trabalhe numa grande fábrica de pregos. Seu chefe está à toa e não tem absolutamente nenhuma tarefa para te passar porque, no momento, simplesmente não existe nada para ser feito. Mas claro que ele não pode deixar que você saiba disso. Então, ele pede para que você faça um levantamento para certificar se as caixas de pregos vendidas pela fábrica realmente contêm a quantidade que deveriam.

E lá vai você, entrar em contato com revendedores, clientes,  outros trabalhadores da fábrica, mobilizar todo mundo para conseguir um dado que não será aproveitado em nada, solicitado apenas porque seu chefe não queria dar o braço a torcer para a grande falta do que fazer do momento. E dá-lhe revendedores, clientes e outros trabalhadores contando pregos mundo afora.  Está criado o ciclo de inutilidades.

Assim que me sinto às vezes: contando pregos.

Cadê o tempo de contemplar as estrelas?

O que? A lentidão

Quando? 1995

Quem? Milan Kundera

Páginas? 105

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8 comentários sobre “A lentidão

  1. fico pensando se a coincidência de ter parado para ler esse post agora, no final de uma sexta cansativa, tenha a ver com o dedo machucado ou vice-versa. anfã… “mesmo quando tudo pede um pouco mais de calma, a vida não para…”

  2. Pois é Estéphanie… agora você fez uma pergunta para a aqual busquei, mas infelizmente, não encontrei a resposta: “Cadê o tempo de contemplar as estrelas?” Será mesmo, que com um esforço heróico imaginário, conseguiremos ver estrelas em pregos? Ou devemos encarar cruamente que a vida, às vezes não é tão bela? Fato que é, por vezes, me sinto desaparecendo junto com os últimos flanadores, as últimas árvores debaixo das quais se liam livros e poesias e se ficava extasiado de amor…

    OBS: Não poderei deixar de comentar que lindo o Milan Kundera em? E ainda com tantos elementos femininos na escrita, sei não, parece muito bom… hehe!
    Abraços

  3. Eu acho que nossa geração tem estado com o dedinho bem machucado, latejando!

    Fico pensando se nós é que não somos uns chatos, confundindo tudo e querendo ver estrelas onde tem mesmo que haver pregos. Ás vezes o caminho era mesmo “conseguiremos ver estrelas em pregos”. Mas aí paro e penso, que diabo, porque se contentar com o pré estabelecido? Daqui uns anos a opinião talvez seja diferente, mas por enquanto ainda acho que certo mesmo estava era Ferris!!!

    E sim, essa Milan era um bonitão!!!

  4. Eu li só A Insustentável Leveza do Ser desse cara e odiei a história…mas AMEI todas as reflexões que ele faz ao longo do livro. Ele é muito bom de apontar coisas óbvias, mas que a gente não repara, num é? Agora estou lendo um livro de contos, Risíveis Amores. Estou gostando bastante! Fica d sugestão :-)

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