100 Coisas

Já parou para pensar no tanto que o hábito de leitura de uma pessoa pode dizer sobre ela? E no tanto que o empréstimo de livros é um ato de extrema intimidade? Primeiro porque aceitar o livro de uma pessoa é um ato de confiança. Tem que confiar muito pra cair de boca num livro cujo único fiador é o relato entusiasmado de uma pessoa. Segundo porque dá pra ver um pedacinho a mais dessa pessoa, o que a emociona, o que a atrai, o que a toca. Do nada nos deparamos com um mundo novo de repertórios que fazem parte dessa pessoa que a gente pensa que conhece bem.  E quando o livro foi o preferido numa outra idade, outra fase da vida? Temos então um terceiro item: podemos conhecer melhor a época em que às vezes não tivemos como conhecer pessoalmente devido a uma amizade tardia – e quando digo tardia, não digo que exista uma idade boa para fazer amigos, é só que quando a gente fica amigo mesmo de uma pessoa, sempre dá uma dorzinha por não a ter conhecido antes e ter sido amigos de infância… Se o livro vier acompanhado de anotações temos ainda um quarto e último item. Além de simplesmente conhecer esse outro mundo particular, é como se você ainda tivesse a oportunidade de passear pelos locais preferidos dessa pessoa. Ou, no caso desse livro que acabo de ler, passear pelos conhecimentos sobre as figuras de linguagem presentes na obra, já que o livro havia sido uma leitura obrigatória para as aulas de português, rs!

Mas isso é detalhe. O que conta é que por essas, e talvez outras, um livro aparentemente ordinário como 100 coisas pode se tornar uma grande leitura. São 100 mini crônicas de praticamente um parágrafo sobre 100 coisas aleatórias. Leitura de uma ou duas sentadas, de virar as páginas sem perceber.

Pesquisando uma foto do Fernando Bonassi, autor de 100 coisas, no google, achei estranho aparecerem tantas fotos do Murilo Benício. Aí fui descobrir que Bonassi é um dos criadores da série Força Tarefa. É que, além de escritor, ele também é roteirista e cineasta. Foi mal, Bonassi, mas sempre tive uma quedinha pelo Murilo Benício!

O prefácio e a orelha do livro dão a dica que está é uma obra para o público jovem: “100 Coisas inaugura a coleção de crônicas Todas as Tribos, destinada aos jovens de alma e aos que têm coragem de olhar, ver e dizer”.

Como se para dar uma palhinha e confirmar a veracidade do relato, me mostraram uma das crônicas antes de fechar a transação do empréstimo. Como ler um livro emprestado é, além de conhecer um pouquinho do mundo particular de uma pessoa, também ressignificar a obra, em vez de mostrar a crônica que deu origem a minha leitura, separei outra, que gostei muito, e que talvez sirva de origem para uma outra leitura.

(Obs.: muita preguiça de pais que usam a desculpa de doenças relativamente modernas para não educarem seus filhos:)

“Bilhetinho da Escola

Queridos papais: o Duduzinho é um garoto hiperativo. Esse tipo de personalidade é comum no contexto de uma sociedade que apresenta diversos estímulos, nem todos condizentes com personalidades em formação, como o caso em questão. As modernas técnicas pedagógicas recomendam processos ludoterápicos, que visam a transformação criativa desses impulsos. Mas o negócio é o seguinte: nós tentamos o diabo com esse moleque maldito. Ninguém aqui aguenta mais esse pequeno canalha. Façam o favor de não trazê-lo amanhã, nem nunca mais, pô!”

O que? 100 Coisas
Quando? 2000
Quem? Fernando Bonassi
Páginas? 109

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3 comentários sobre “100 Coisas

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