Cartas a um jovem poeta

Esse post vem para mostrar como as surpresas do mundo literário não acabam. Se não bastassem obras e autores praticamente infinitos, quase infinitas são também as formas de leitura. Logo após gastar algum tempo pensando e elaborando sobre os prazeres de se ler um livro emprestado, e achando que tinha praticamente esgotado o assunto, recebo outro empréstimo e me deparo com algo novo.

Todos os itens do post anterior remetiam a descobertas possíveis acerca do dono do livro a partir do empréstimo. O que eu não contava é que é possível descobrir muito sobre você mesmo. Ou pelo menos muito do que a pessoa acha que você é – e não somos aquilo que as pessoas acham que somos? – quando recebemos um livro emprestado.

É que além do empréstimo, fui presenteada com grifos e comentários de trechos que a pessoa achava que se pareciam comigo ou remetia a características minhas. Bom, também não posso ser tão prepotente. Algumas partes de Cartas a um jovem poeta, não foram grifadas por minha causa, mas aí eu já estava no espírito e comecei a me identificar mesmo assim.

Durante alguns anos, na França, Rilke trabalhou como secretario do escultor Rodin. Segundo Rilke, Rodin teve grande influencia em sua poesia

O livro reúne algumas cartas que o poeta Rainer Maria Rilke, nascido em Praga, havia trocado com um jovem – e ao que me parece, ainda inseguro – poeta: Franz Kappus. Kappus havia enviado um poema seu à Rilke em busca de opinião, ao que Rilke responde “Não há nada que toque menos uma obra de arte do que palavras de crítica: elas não passam de mal-entendidos mais ou menos afortunados. As coisas em geral não são tão fáceis de apreender e dizer como normalmente nos querem levar a acreditar; a maioria dos acontecimentos é indizível, realiza-se em um espaço que nunca uma palavra penetrou, e mais indizíveis do que todos os acontecimentos são as obras de arte, existências misteriosas, cuja vida perdura ao lado da nossa, que passa”. Apesar da resposta aparentemente evasiva, Rilke continuou, por muitos anos, a trocar cartas com Kappus.

Esse era um dos trechos grifados quando comecei a ler o livro. Não sei se era pra mim, mas poucos dias antes eu havia feito algo parecido: mandado o link do blog, de um algum post anterior, e pedido para que a pessoa me dissesse o que achava do texto. Será que era uma indireta para que eu havia acabado de fazer? Ou será que era uma indireta para o fato que, aqui no blog, o que eu faço é dizer o indizível? Não sei.

Mas um trecho eu tenho certeza que foi pra mim, pois tinha meu nome nele: “[…] descreva suas tristezas e desejos, os pensamentos passageiros e a crença em alguma beleza – descreva tudo isso com sinceridade íntima, serena, paciente, e utilize, para se expressar, as coisas de seu ambiente, as imagens de seus sonhos e os objetos de sua lembrança. […] Procure trazer à tona as sensações submersas desse passado tão vasto; sua personalidade ganhará firmeza, sua solidão se ampliará e se tornará uma habitação a meia-luz, da qual passa longe o burburinho dos outros”.

O que? Cartas a um jovem poeta

Quando? 2006

Quem? Rainer Maria Rilke

Páginas? 91 páginas rapidíssimas de ler

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5 comentários sobre “Cartas a um jovem poeta

  1. Este é um dos meus livros favoritos! Já passei e passeei tantas vezes pelas páginas que estas estão todas tortas.. como se o livro tivesse caído na água…!

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