A metamorfose

Um dos lugares que mais gostei de visitar em Praga foi o Museu do Kakfa. Todo o acervo ressalta muito a importância e a influência do clima de Praga para a escrita do autor. Foi interessante saber que Praga, com suas divisões linguísticas e culturais, era um lugar misterioso e até mesmo amedrontador para Kafka, e que isso tudo está lá, em suas obras.

Depois que saí do museu – e que fui embora de Praga – fiquei pensando que, se lesse A Metamorfose novamente, teria uma compreensão completamente diferente do livro, que conta a história de Gregor Samsa, caxeiro viajante que, um belo dia, acorda metamorfoseado em um inseto.

Há quem diga que um livro – ou uma obra qualquer – deve se encerrar em si mesmo. Ou seja, ele próprio deve fornecer todas as informações necessárias para o seu entendimento. Nesse caso, tudo o que eu preciso saber sobre tal livro está nele mesmo, em suas páginas. Concordo bastante com isso.

Entretanto, há também quem diga que existem diversos níveis de leitura. Como se cada informação a mais sobre o escritor ou sua obra fosse capaz de dar elementos para novos e, talvez, mais aprofundados tipos de leituras. Se eu sei que tal obra foi escrita durante a guerra fria, por exemplo, pode ser que eu consiga apreender outros elementos que antes nem perceberia. Se eu sei que um poema foi escrito logo depois que o autor perdeu um ente muito querido da família – outro exemplo – provável que eu consiga dar também outros significados antes não imaginados.

Também não consigo deixar de concordar com essa hipótese. Mas  eu não usaria a palavra “níveis de leitura”, que dá impressão que uma leitura é mais importante que a outra, como se cada uma fosse um degrau mais próximo do que seria a verdadeira intenção do autor. Como  se um nível se aproximasse mais da “verdade do livro” do que o outro. Isso eu já não consigo concordar!

Claro que se você já conhece outras obras do escritor, sabe em que época ele viveu, como ele viveu, se era pobre, rico, feliz, infeliz, se foi ou não influenciado pelo autor x ou y, vai fazer uma leitura bem diferente da de quem pegou o livro por acaso na estante e simplesmente começou a ler. Diferente, sim. Melhor, dificilmente. Aliás, tem horas que eu preferiria não saber nada sobre um autor para poder ter de novo aquele olhar inocente e desavisado! Mas tem hora também que fico tao viciada e querendo entender o que fez com que um escritor chegasse a tal resultado – o livro – que pesquiso até o que ele gostava de comer no café da manhã!

Por isso estive pensando que, em vez de níveis, uma analogia mais aproximada pudesse ser a de órbitas… pensa comigo: a Terra, por exemplo, está em órbita ao redor do Sol. E esta órbita não é um círculo perfeito. Ás vezes se aproxima, ás vezes se afasta do Sol. Enquanto isso, outros corpos celestes estão por aí, também orbitando ao redor do Sol. Às vezes esses corpos estão mais perto do Sol que a Terra, às vezes é a Terra quem está mais próxima. Independente disso, nenhum deles jamais – assim esperamos, pelo próprio bem deles – encostará no Sol.

Lá no meio esta o livro. Ao redor, as diferentes órbitas de leitura. Em alguns momentos, umas se aproximam do “centro”, outras se afastam. E mesmo leituras de órbitas diferentes, também se aproximam umas das outras em algumas ocasiões!

Acho que os tipos de leituras são essas diferentes órbitas. E digamos que o sol seja o “verdadeiro íntimo” do livro. Independente de em qual órbita sua leitura esteja, em determinados momentos ela vai se aproximar e, em outros, se afastar da leitura e do sentido pretendido pelo autor. Ninguém jamais fará a exata e idêntica leitura imaginada pelo escritor, mas em alguns momentos, alguns irão se aproximar, outros se afastar.

Quem nunca ouviu falar de Kafka ao ler A metamorfose fará uma órbita de leitura. Quem já ouviu falar e até já leu algum outro livro dele, fará outra. Quem ler o livro no original, em alemão,  fará uma terceira órbita de leitura. Quem lê em alemão e ainda sabe que Kakfa era judeu e, nasceu e viveu em Praga, fará uma outra. Quem ainda sabe que Praga era uma cidade que abrigava muitos medos e mistérios para Kafka, mas não sabe patavinas de alemão  fara uma outra e assim eu poderia continuar, ad infinitum…como o universo mesmo…

O que? A metamorfose (Outros livros do autor: O Castelo e O Processo)

Quando? Secrito em 1912, publicado em 1915

Quem? Franz Kafka

Páginas? Ah, não faz pergunta difícil não! São poucas!

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2 comentários sobre “A metamorfose

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