Ana Karênina

Já comecei esse post um milhão de vezes e  continuo sem saber como proceder, que aspecto abordar, o que dizer da minha primeira leitura de 2013. Foram tantos capítulos, tantas páginas, tantos personagens e tanta coisa que me passou pela cabeça que não consigo me decidir.

Primeiro pensei em contar como os filmes nem sempre desestimulam a leitura daqueles – tipo eu – que têm o pensamento “ah, agora já vi o filme, sei a história, não quero mais ler”. Contar que pode acontecer um pensamento inverso, do tipo: “nossa, quero muito ver esse filme, melhor correr e ler o livro antes da estreia!”. Pois foram justamente os cartazes anunciando a estreia do longa Ana Karênina que me fizeram finalmente passar da antiga vontade de encarar esse romance de fôlego para a leitura de fato.

anna-karenina-poster

Muito entusiasmada para conferir essa nova versão cinematográfica do livro. Que já estreiou em um monte de país, mas nada ainda aqui no Brasil…

Depois pensei em dizer em como foi bom começar o ano já com esse leitura “grandiosa”. Depois de semanas sem ler nada, podia ter começado com algo mais leve e rápido. Um livro de crônicas, talvez. Mas achei melhor encarar logo de uma vez as 841 páginas escritas por Tolstói. É bem o tipo de leitura que você sempre quer realizar, mas fica protelando em busca de um momento ideal. Cara, esse momento não existe. Sempre teremos trabalho para fazer, louça para lavar, filhos pra cuidar, então, essa desculpa não cola. Mas esse papo é meio moralista e não quis começar por isso.

Pensei também em começar com o fato curioso de que, apesar de dar nome ao livro, Ana Karênina é a personagem que menos me interessou na leitura e em como eu preferia que Tolstói tivesse escolhido Liêven para nomear a obra. Mas depois eu me dei conta que, apesar de menos interessante, Ana Karênina é o fio condutor de quase todos os conflitos e que era justo que estampasse a capa…

Até me passou pela cabeça abordar a minha melhora considerável em lidar com nomes impronunciáveis – Arcádievitch, Alieksándrovitch, Mikháilovna… – ou então o tão pouco que eu conheço da Rússia e seus costumes.

Só que, no final das contas, o que me marcou mesmo foi encontrar, no livro, confirmação para alguns pensamentos que já há algum tempo venho tendo: de como a gente, sem perceber, se prende a milhares de convenções e obrigações inexistentes que só fazem consumir o nosso tempo.

Liêvin, que apesar de vir de família aristocrática é homem simples, que prefere a lida diária da vida rural do que o dia a dia cosmopolita de Moscou, se questiona porque para ir a um vizinho próximo é preciso contratar um carro com 4 cavalos e pagar uma fortuna em rublos sendo que o percurso pode ser facilmente feito a pé. Mas o que pensaria a aristocracia russa ao ver Liêvin chegando a pé na casa de um nobre? E o pior é que, longe do campo e de suas atividades habituais, Liêvin se deixa levar. Mesmo pensando ser uma bobagem, ele se adequa aos costumes e ao que esperado que ele faça.

No campo Liêvin tem muito o que fazer, muitas tarefas e funções que, sem descanso, mas com prazer, consegue cumprir. Quando está na cidade, não tem nada o que fazer, gasta o dia em atividades improdutivas, e ainda não consegue realizar algumas poucas tarefas que lhe poderiam ser úteis. Passa o dia ocupado em conversas, visitas de cortesia eoutras atividades que não o agradam, mas consomem o seu tempo.

Se na Rússia do século XIX já era assim, fico ainda mais com a impressão que a vida alcançou níveis insustentáveis de complexidade. Algumas tarefas só existem para manter outras tarefas que só servem para manter uma outra atividade que, por sua vez, não tem nenhuma razão de ser.

Tipo a mulher que gasta duas horas atrás do volante, em um trânsito infernal, para chegar em casa, por seu traje esportivo e se preparar para duas horas de ginástica numa bicicleta ergométrica. Ou o homem que passa o dia nos escritório para poder pagar uma babá que cuide do seu filho. A moça que usa cada vez mais maquiagem para esconder as imperfeições da pele causada pelo uso de produtos químicos. E eu, que vou ter que trabalhar nos próximos meses para pagar o conserto do carro que eu mantenho principalmente por morar longe do trabalho.

É o trabalho na busca pelo dinheiro que ira bancar as atividades de lazer para aliviar o estresse causado pelo trabalho exagerado.

Sério, tá faltando pensar um pouco mais nessa loucura toda. Ou de menos…

“Porventura foi através do raciocínio que eu cheguei à conclusão de que é preciso amar o próximo e não lhe fazer mal? Disseram-mo na infância e acreditei-o com alegria, pois trazia-o na alma. E quem o descobriu? A razão, não. A razão descobriu a luta pela existência e a lei, que exige que se eliminem todos quantos nos impedem de satisfazer os nossos desejos. Esta a dedução do raciocínio, que não pode descobrir que se deve amar o próximo, pois amar o próximo não é razoável” (Liêvin, pelas mãos de Tolstói, em Ana Karênina, p. 821)

Mas assim, Ana Karênina tem várias outras facetas a serem desvendadas…

 

ana-karnina-liev-tolstoi-capa-dura-ed-integral_MLB-F-3023480344_082012O que? Ana Karênina

Quando? 1877

Quem? Leon/Leo/Liev/Lev/Leão Tolstói (fui pesquisar pra saber qual das versões era a certa e quais eram traduções…meio que todas são versões. O nome dele em russo é Лев Никола́евич Толсто́й)

Páginas? 841

Anúncios

5 comentários sobre “Ana Karênina

  1. Stéphanie!
    Pronto, resolvi começar a comentar as coisas que eu leio agora. Hehe.
    É que fiquei com vontade de dizer que comigo aconteceu o efeito contrário de ver um filme e não querer mais ler o livro. Mas foi vendo uma peça, adaptação de um outro russo ortograficamente complexo, o Dostoiévski (oi, Google?). Era “O Idiota”, peça longuííííssima, mas que eu achei muito legal. Fiquei morrendo de vontade de ler o livro – igualmente longuíííssimo. Nunca li nenhum livro russo. Quem sabe Ana Karenina também não entra na minha listinha de desejos?
    Enfins: curti a escolha final do post!

    Beijo!

    1. Resolução de ano novo, Carol?

      hahahah, gostei do ortograficamente complexo!
      Já houve exceções para esse meu pensamento preguiçoso de ver o filme e não querer mais ler o livro, mas foram raras!
      “O idiota” eu nunca li – ou vi peça – mas Ana Karenina eu garanto que vale a pena!

      Beijos!

  2. Lá vou eu comentar mais um! E juro que não é pra manter o record, mas curti mesmo esse post também! Hahaha Sério, ficou muito legal. Livro grande e complexo ia acabar rendendo muitas reflexões, sem dúvida. Mas me identifiquei especialmente com essa:

    “É o trabalho na busca pelo dinheiro que ira bancar as atividades de lazer para aliviar o estresse causado pelo trabalho exagerado.

    Sério, tá faltando pensar um pouco mais nessa loucura toda. Ou de menos…”

    É…

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s