O leopardo

Na contramão de muitos escritores atuais que lançam dezenas de livros durante a vida (sério, fiquei muito assustada um dia desses aí para trás quando descobri que Nicholas Sparks tem 17 livros publicados e Agatha Christie, 84!), Giuseppe Tomasi escreveu apenas um livro durante a vida: O leopardo. E com uma única flecha, parece-me ter sido muito mais certeiro do que, por exemplo, Danielle Steel, que gastou um saco inteiro (88 livros publicados!).

Apesar de ter sido escrito durante os anos de 1955 e 1956 e retratar o processo de unificação da Itália (il Risorgimento), iniciada em 1815, não pude deixar de, a todo momento, fazer um paralelo com a situação atual do Brasil. Por quê?

Bom, a unificação da Itália e a conseguinte queda dos aristocratas e ascensão da classe burguesa tem, como linha condutora, o príncipe de Salina Don Fabrizio e sua família. O cenário é a iminência de uma revolução liberal, que se pretende republicana, e a chegada das tropas de Garibaldi, que têm o intuito de libertar os reinos de seus monarcas e unificá-los.

Mas quando Garibalde chega, não há mais batalha a ser vencida, pois a aristocracia faz uma retirada tática. Assumem postura liberal para tentar manter o que ainda lhes resta. Nesse momento, Tancredi, um aristocrata falido e oportunista, sobrinho de Fabrizio, solta a frase que considero a mais certeira do livro: “Se queremos que tudo fique como está é preciso que tudo mude. Expliquei-me bem?”, é o que ele pergunta a seu tio.

Tio Fabrizio demora a entender, mas percebe que, se quiser manter o que tem, precisa fazer-se de liberal. Aceitar a ascensão burguesa para tentar evitar uma queda total da nobreza. É o que acontece na mente de quase todos os outros nobres e por isso não há mais revolução republicana. Apesar de unificada, a Itália continua monárquica. Afinal, como lutar com alguém que está do mesmo lado que você?

E não é isso que acontece hoje com a nossa falsa democracia? Aparentemente, temos a chance de, a cada quatro anos, mudar tudo. Mas as peças de reposição são sempre as mesmas. Dá-se a falsa sensação de alterações para que o desejo pelas mudanças reais fique reprimido. Deixam que escolhamos aquilo que não importa muito, que façamos as substituições, para que não lembremos que o que está errado não são os jogadores, mas as regras do jogo.

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Eis Giuseppe Tomasi, Princípe de Lampedusa (sim, um princípe!)

Outro paralelo possível entre o cenário do livro e o brasileiro: Fabrizio olha para o burguês, Calogero Sedàra, pai de sua futura nora, ao adentrar suas terras, seu palácio, sua família, com a mesma repreensão e repugnância que os ricos brasileiros veem as classes C e D invadirem suas universidades, seus aeroportos, as suas ruas de Paris e Nova York.

Mas existe uma diferença que pode ou não ser grande, o futuro dirá. Na Itália do Século XIX, apesar da mudança estratégica, a sobrevida não dura muito e, eventualmente, a nobreza cai. Mas a riqueza apenas troca de mãos. Nobres veem, pouco a pouco, seus tesouros esfarelarem e burgueses acumularem riquezas. Já a situação dos pobres camponeses e pequenos artesãos continua a mesma. Sem terra, sem dinheiro, sem direitos. No Brasil, mais do que mudar de mãos, o bolo parece estar finalmente começando a ser repartido. Uma parcela pequeníssima e muito rica da população está ficando um pouco menos rica para que alguns miseráveis comecem a comer e chegar à Universidade. Parece uma troca um pouco mais justa.

O_LEOPARDO_1284931465PO que? O leopardo (em italiano, il gattopardo, que pode ser uma referência aum tipo de gato selvagem que foi caçado até a extinção na Itália do século XIX)

Quando? Publicado postumamente, um ano depois da morte do autor, em 1958

Quem? Giuseppe Tomasi di Lampedusa

Páginas? 274

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6 comentários sobre “O leopardo

  1. bem legal, Bollmann! cê é a segunda pessoa que indica muito o livro!
    vou fazer um esforço pra passar ele na frente da fila!
    adorei seus paralelos. vida a mudança – das regras e dos jogadores, com perdas e ganhos, até que o estado de coisas se altere também.
    beijos,
    tz.

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