O mal-estar na civilização

Achei que estaria realmente saindo da minha zona de conforto – porque a arte de ler está também em não se ater apenas ao que você está acostumado, mas buscar novos estilos, novos assuntos, novos autores – ao ler meu primeiro Freud.

De fato, fui apresentada a vários novos conceitos e tive que correr atrás de outros tantos termos que são utilizados como se corriqueiros, já que esse é um dos escritos mais tardios de Freud e ele simplesmente assume que as pessoas já leram outros de seus ensaios e artigos e já estão familiarizadas com o conceito de Eu e Super-eu, por exemplo. Nesse caso, foi muita sorte ter amigos da psicologia por perto para consultas.

Mas essas pequenas barreiras teóricas foram suplantadas pelo estilo altamente literário de Freud, o que me colocou de volta em minha zona de conforto. Trata-se de um texto nada duro e muito leve. Cheio de analogias fáceis de entender. E o que eu mais adorei mesmo foi o fato de ele citar Shakespeare, Goehte, Heinrich Heine entre outros grandes escritores e poetas para corroborar suas teorias!

Os temas também ajudaram bastante, já que estes são assuntos que têm estado muito em pauta na minha vida, e provavelmente na de todos nós: o conflito entre o indivíduo e a sociedade e as origens da felicidade, ou da infelicidade.

 

Pacato Cidadão!
É o Pacato da Civilização…

 

Um dos pontos que mais me marcou foi a humildade do autor em reconhecer que a questão da finalidade da vida humana já foi colocada inúmeras vezes e em nenhuma delas foi respondida de forma satisfatória e talvez nunca venha a ser. Por isso passa-se então para uma questão menos ambiciosa: qual é a nossa conduta em relação a finalidade da vida? O que desejamos alcançar? “Queremos ser e permanecer felizes”.

Primeiro problema: a felicidade vem, normalmente, da satisfação repentina de necessidades represadas, e por isso mesmo, é possível apenas como fenômeno episódico. Conseguimos usufruir intensamente só o contraste, muito pouco o estado. E nesse ponto Freud usa o seguinte verso de Goethe como exemplo: “Nada é mais difícil de suportar do que uma série de dias belos”.

Disso desdobra-se um fato: a felicidade é difícil de manter. Já a infelicidade é bem menos difícil de experimentar e vem, segundo Freud, em três grandes vertentes: da impotência diante da degradação certa do nosso corpo; do mundo externo; e da relação com outros seres humanos (sendo este último um dos mais dolorosos: “Nunca estamos mais desprotegidos ante o sofrimento do que quando amamos, nunca mais desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou o seu amor”).

E aí nos perguntamos: melhor sair em busca da felicidade, tão efêmera e difícil de alcançar e ainda mais difícil de manter por perto, ou moderar nossa pretensão à felicidade e nos darmos por satisfeito em apenas evitar a dor e o sofrimento? “A satisfação irrestrita de todas as necessidades se apresenta como a maneira mais tentadora de conduzir a vida, mas significa por o gozo à frente da cautela, trazendo logo o seu próprio castigo”. Passar pelos altos e baixos da busca pela felicidade ou se manter na faixa constante do afastamento da infelicidade?

O livro faz pensar, mas não traz uma resposta – ainda bem! Não existe um conselho válido para todos, por isso gostei dessa “não-resposta” de freud: “O êxito jamais é seguro, depende da conjunção de muitos fatores, e de nenhum mais, talvez, que da capacidade de constituição psíquica para adaptar sua função ao meio e aproveitá-lo para conquistar prazer”.

Na segunda vertente da infelicidade – a que advém do mundo externo – Freud traz mais uma série de questionamentos, muitos deles que venho tendo frequentemente, sobre a civilização e o sentimento de culpa que ela traz, muitas vezes agindo contra nossa busca individual pela felicidade. Mas este já seria assunto para outro post…

 

o-mal-estar-na-civilizacaoO quê? O mal-estar na civilização

Quem? Sigmund Freud

Quando? 1930

Páginas? 93

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7 comentários sobre “O mal-estar na civilização

  1. Pois é Bollmann, merece muitas reflexões essa obra de Freud (que eu ainda não li… rs).

    “Nunca estamos mais desprotegidos ante o sofrimento do que quando amamos, nunca mais desamparadamente infelizes do que quando perdemos o objeto amado ou o seu amor”, trecho forte, não?

    Mais adiante você pergunta se “moderar nossa pretensão à felicidade e nos darmos por satisfeito em apenas evitar a dor e o sofrimento?”. Não seria assim a vida tão sem graça?

    1. Sem graça, mas segura. Vai da escolha de cada um, né?
      Eu particularmente acredito que devemos escolher quais batalhas lutar…
      Não dá para viver com medo, mas também não dá para sair se lançando em qualquer aventura…dá?
      Mas dar-se por satisfeito? Jamais =)

      (Gente, garanto que o livro não é nenhum bicho de sete cabeças!)

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