Libelo contra a arte moderna

Ler não é mesmo uma tarefa nada fácil. Tem horas que me sinto burra até. Tipo quando eu leio um livro e chego no final sem saber direito onde o autor estava brincando, onde estava falando sério e o que exatamente ele estava criticando. Nessas horas a gente para, respira, volta e começa de novo.

No caso de Libelo contra a arte moderna, o dilema começou com o título. Que diabos é libelo? Aurélio responde: Livro pequeno; exposição articulada do que se pretende provar contra um réu, escrito difamatório. Na verdade, o libelo veio por conta dos tradutores brasileiros, porque o nome original em francês – Les cocus du vieil art moderne –, em tradução literal, significa Os cornudos da velha arte moderna. Cocus vem de Coucou, o cuco, pássaro cuja fêmea pões seus ovos em ninhos de outra aves que, enganadas, chocam os ovos. Ou seja, uma tradução mais fidedigna poderia ser “os chifrudos da velha arte moderna”. Mas o livro foi originalmente publicado numa série que se chamava Libelle,daí você pode intuir o resto.

E por que eu estou gastando horas só para explicar o título? Porque é muito ruim começar uma coisa já com a sensação de que se perdeu alguma coisa. Tipo quando a gente chega atrasado numa sessão de cinema. Mesmo que você tenha perdido só uns minutinhos, fica todo perdido achando que o ponto crucial do filme pode já ter passado e que talvez o significado do resto todo seja outro e, mesmo que na verdade você não tenha perdido nada muito importante, fica aquela sensação ruim.

Enfim…e por que diabo uma pessoa decide comprar e ler um livro que não sabe nem o significado do título? Porque era do Dalí… e porque uma pessoa que pinta como ele provavelmente estenderia suas habilidades para a escrita. E estende. O problema é que, como em suas pinturas, no seu vestuário e comportamento, Dalí é bem excêntrico em seus escritos. E também despeitado. Sai metendo o ferro em artistas como Picasso que, além de admirado e famoso, era seu conterrâneo, contemporâneo e conhecido! Por que descer a lenha em coisas que já foram ou em pessoas que estão distantes – seja no tempo ou no mundo – é fácil. Difícil é criticar – e sustentar essas críticas – o que está ali, tão próximo da gente.

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Dalí foi fortemente influenciado pela leitura de A interpretação dos sonhos, de Freud, assim como o surrealismo, como um todo, foi influenciado pela psicanálise. Engraçado que mesmo sendo uma “inspiração” do movimento, Freud achava os surrealistas meio esquisitos e foi um encontro com Dalí – logo quem! -, que o apresentou a tela acima – Metamorfose de Narciso -, que melhorou um pouco a imagem dos surrealistas com o médico austríaco…

Mas ele o faz. Para Dalí, os críticos da época estavam sendo completamente enganados pelos artistas modernos. Daí o cornudos e chifrudos do título original. Para o “surrealíssimo”, existem dois tipo de cornudos:

1. O velho cornudo dadaista de cabeleira esbranquiçada, que recebe um diploma de honra ou uma medalha de ouro por ter querido assassinar a pintura

2. O cornudo quase congênito, crítico ditirâmbico da velha arte moderna, que se auto-recorneia desde o início pelo corneamento dadaísta

E são cornudos porque foram enganados: a) pela feiura; b) pelo moderno; c) pela técnica e d) pelo abstrato. “Pintores começaram a fazer o feio. Quanto mais o faziam, mais eram modernos”. E Dalí argumenta: “que pode haver de mais cornudo, de mais enganado, de mais sobrecarregado de fissuras e rachaduras que essa arte moderna fanática pela limpeza esterilizada das formas funcionais e das superfícies assépticas […]?”.

Para Dalí, que era exímio desenhista e que fazia vários esboços e estudos antes de pintar, os modernos escondiam suas deficiências, imperícias e inabilidades técnicas atrás da tal “plasticidade” da obra.

A grande verdade é que não entendo bulhufas de arte. Apenas sinto. E sinto grande emoção com os trabalhos de Dalí, assim como também em algumas das telas que ele escurraça. E por mais que eu aprecie pessoas que, como Dalí, se posicionam, saem de cima do muro e pulam em cima dos adversários, não dá pra levar tão a sério assim o Libelo. Mas vale pelos conhecimentos adquiridos!

Edição daquelas de oito reais!O que? Libelo contra a arte moderna

Quem? Salvador Dalí recebeu o mesmo nome do seu irmão, morto dois anos antes do nascimento do pintor, fato que lhe causou grandes angústias e crises de identidade

Quando? 1956

Páginas? 105

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3 comentários sobre “Libelo contra a arte moderna

  1. Adorei o texto, Sté! Fiquei muito curiosa para ler o livro!

    E aproveito o comentário para sugerir outro: Sempre gostei das pinturas do Dalí e sabia mais ou menos sobre sua figura, mais menos do que mais, como quase todo mundo (acho). Eis que a professora aqui da pós pede pra gente ler uma obra de teatro que se chama “Daaalí”, da companhia Els Joglars. É incrível porque além de falar da sua arte, suas historias, memórias, teorias e paranoias, o faz de forma surrealista… como sua própria pintura.

    Me fala se tem aí no Brasil e se não, vou ver se arranjo um exemplar pra vc! ;)
    Beijos!

  2. Ju, fiz uma pesquisa básica aqui e não achei! Achei referências à peça, mas não achei para vender! Me arruma um exemplar aí! Você deve estar lendo coisas muito boas aí pra pós, né?! Fico curiosa para saber!

    E achei engraçada a coincidência porque os próximos posts aqui do blog vão ser sobre peças de teatro também =)

    Saudades de você!
    Beijos!

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