O primo Basílio

O primo Basílio eu li pelo mesmo método que usei para ler A volta ao mundo em 80 dias: o Leitura diária. Já expliquei sobre o método aqui, mas, basicamente, trata-se de uma ferramenta on-line que divide o livro em várias pílulas – que você vai recebendo e degustando diariamente por e-mail.

No início, fui acompanhando direitinho, mas, com o tempo, garrei tanto ódio da personagem feminina principal do livro, D. Luísa, que fui parando de ler. Meses se passaram até que eu resolvesse retomar e finalizar a leitura.

E por que fui garrar ódio de tal personagem?  Porque se trata de uma personagem que me ofende como mulher e ser humano. Típico estereótipo que estamos acostumados a ver em novelas, da mocinha que se apaixona por outro, trai, é abandonada pelo objeto de afeto efêmero, morre de medo de perder o mocinho enganado que ainda não sabe da traição e que, por fim, se vê vítima de chantagem.

O papel de chantageador, que pode ser desempenhado por uma rival qualquer, aqui é desempenhado por Juliana, a criada explorada que vê nas cartas roubadas que revelam o amor proibido uma grande chance de arrancar da patroa aquilo que nunca conseguiu pelos meios éticos: ser tratada com respeito, dignidade e com o mínimo de condições. E por que a personagem de Luísa me ofende? Porque é real e está a minha volta.

O livro é uma crítica ferrenha ao modo e estilo de vida burguês: mesquinho e fútil. Quando D. Luísa se vê nas mãos da criada Juliana, é obrigada a, ela mesma, engomar suas roupas, varrer a casa, retirar a louça e, pasmem, arrumar a própria cama! “Acredite, tenho sido bem castigada! Ao princípio pediu-me seiscentos mil-réis. Depois começou a martirizar-me… Tive de lhe dar vestidos, roupa, tudo! Mudou de quarto, servia-se dos meus lençóis, dos finos. Era a dona da casa. O serviço quem o faz sou eu!… Ameaça-me todos os dias, é um monstro. […] A minha vida é um inferno. […] E trabalho como uma negra. Logo pela manhã a limpar e varrer. Às vezes tenho de lavar as xícaras do almoço. […] Talvez não acredite, Sebastião, sou eu que faço os despejos!”, se lamenta a pobre Luísa.

A crítica do livro não se resume a relação patroa/empregada, mas diante das recentes discussões sobre a PEC das domésticas, foi o que mais me chamou a atenção.

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Quão admirado ficaria Eça de Queirós ao saber que até hoje a relação patroa/empregada carrega resquícios das de 1878, ano de publicação de O primo Basílio? Quão chocado ficaria se tivesse acesso ao Facebook e pudesse ver a similaridade entre os relatos da injustiçada Luísa de 1878 e da classe média atual que, chocada, reclama que a PEC deixará a contratação das empregadas domésticas muito mais cara?

“Como agora vou conseguir trabalhar, estudar e cuidar dos meus filhos?”, é o que reclama a “mulher moderna” sobre a nova lei de contratação das domesticas. Ela só parece não se dar conta que a “mulher moderna” sobrevive às custas de mulheres que abandonam seus lares e suas casas para cuidar das casas das “mulheres modernas”.

Obviamente, não temos o cenário ideal quando falamos de creches, escolas e transporte público que garanta que os pais possam trabalhar sossegadamente. Mas é justo continuar explorando uma classe inteira para garantir os privilégios da classe média? Quem sabe a classe média, enfezada com a nova lei e a impossibilidade de bancar uma doméstica, não comece a cobrar escolas integrais de qualidade? Quem sabe essa não será uma mudança que poderá chamar várias outras? Mudanças e que privilegiariam a sociedade como um todo? Quem sabe?

o primo BasílioO que? O primo Basílio

Quem? Eça de Queirós

e-mails? 97

Quando? 1878

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