2666

Acho bem impossível definir do que se trata 2666. São 848 páginas dividas em 5 grande capítulos que, apesar de terem alguma ligação entre si, poderiam muito bem ter formado cinco livros completamente distintos. Aliás, essa era uma questão para Roberto Bolaño quando o escreveu e principalmente para os editores que publicaram a obra após a morte do escritor. O autor morreu deixando o primeiro rascunho do livro todo pronto, mas com algumas importantes definições a serem feitas. Uma delas: dividir ou não o livro em cinco.

Fiquei feliz com a decisão de mantê-lo como um único e grande livro de fôlego. Sim, foi bem cansativo passar por todas as suas partes direto, sem pausas. Quase um mês de leitura árdua, porém prazerosa. Mas o que me faz crer que a decisão foi mesmo acertada é pensar que dos autores atuais, quem tem se arriscado em grandes e pretensiosas obras? Claro que as narrativas curtas têm seu lugar de destaque e valor, mas as grandes empreitadas têm sido deixadas de lado. Devem existir, claro, mas, assim, de cabeça, não consigo pensar em nenhuma obra recente que ultrapasse a marca das 800 páginas. Vá lá, 700. Alguém?

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” magro, ansioso, leitor voraz de livros e pouco promissor. Era uma criança disléxica a quem os colegas de escola maltratavam e o faziam sentir um estranho”. Assim era Bolaño quando jovem, segundo ele mesmo

O próprio autor faz uma espécie de…piada?, crítica?, sobre isso por meio da fala de um personagem que questiona um farmacêutico que prefere as narrativas breves e redondas, como Bartleby, o escrivão e A metamorfose, em detrimento das obras extensas, ambiciosas e atrevidas, como Moby Dick e O processo. “Que triste paradoxo, pensou Amalfitano. Nem mais os farmacêuticos ilustrados se atrevem a grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminhos no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres em sessões de treino de esgrima, mas não querem saber dos combates de verdade, nos quais os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que atemoriza todos nós, esse aquilo que acovarda e põe na defensiva, e há sangue e ferimentos mortais e fetidez”.

Esse “aquilo” a que se refere Bolaño por meio de seu personagem em 2666 eu acredito que está em falta em quase todas as áreas, não só nos livros. Fruto da rapidez e da agilidade e da impossibilidade da perda de tempo da era moderna? Talvez. Fato é que as pessoas não têm tempo para se lançar em aventuras extensas e ambiciosas que podem não render frutos financeiros ou que não valham a pena serem colocadas no currículo.

Quem hoje em dia teria tempo para pintar uma Capela Cistina? Pra construir uma Pirâmide monumental? Terminar uma Sagrada Família? Ocorre que muitas vezes começar uma empreitada grandiosa dessas significa correr o risco de não presenciar sua conclusão. Que o diga Gaudí, os faráos (vou fazer uma abstração literária sobre os milhares de escravos que devem ter morrido na construção das pirâmides) ou o próprio Bolaño, que não viveram para ver suas mais audaciosas obras terminadas. E ocorre que ninguém hoje em dia quer se dar ao luxo de começar alguma coisa da a qual não chegará a colher os louros.

Bom, pra não falar que não falei do livro, digo que o título é completamente enigmático e que em nenhum momento existe referência a 2666 em suas páginas, apesar de certas referências existirem em outras obras de Bolaño.

É, talvez você tenha que se aventurar nesse grande combate caso queira saber do que se trata.

2666O que: 2666

Quem? Roberto Bolaño

Quando? Publicado postumamente, no ano de 2004

Páginas? 848

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3 comentários sobre “2666

  1. é o tipo de livro que quando você começa a cansar (não por ele ser ruim, mas pela quantidade de leitura mesmo), ele dá um jeito de retomar seu fôlego e devorar o resto!

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