Travessuras de mãe

Travessuras de mãe eu li tem já uns anos, mas resolvi recuperá-lo agora por motivos distintos, mas interligados.

Primeiro porque o tema gravidez tem estado muito próximo e, de tempos em tempos, me surpreendo emocionada com alguma notícia do desenvolvimento da que vai ser a primeira pequetucha a nascer no meu grupo de amigos. A primeira mensagem que recebi falando do tamaninho dela e das batidas do coração, que já estava lá, firme e forte, fui tomada de arrombo por um sentimento de esperança que na hora não consegui racionalizar e explicar, mas que agora começo a conseguir entender.

gabi gravidinha

Quem será a próxima?

E aí entra o segundo motivo deu escolher falar desse livro, neste momento. Entendi que grande parte da minha emoção vinha da esperança de que esta geração que estava começando ali na barriga da minha grande amiga poderia ser uma sem o mesmo grande número de babacas que tenho visto na minha. Esperança de tentar mostrar para ela, a pequetucha, que todo mundo é igual e tem os mesmos direitos – e obrigações, claro! Mostrar que ela pode escolher o rosa ou o azul, o carrinho ou a boneca e, por que não, o cruzeiro ou o atlético (cruzeiro, cruzeiro, por favor!), porque mesmo que ela faça uma escolha que não a minha, vou contar para ela que as pessoas devem ser respeitadas independente de suas opções, desde que não fira os direitos de ninguém (e que ela pode, inclusive, escolher os dois!).

Claro que, quando digo “vou”, quero dizer “vamos”, porque ela já tem uma fila de tias e tios (não estou menosprezando o papel dos pais, mas é que eles vão ter que aprender a compartilhar a pequena) prontos para incuti-la nos mais variados temas. O que ela vai escolher vai depender dela, mas não faltarão oportunidades para que ela se torne poliglota, fã de cinema, leitora ávida, craque de bola ou exímia dançarina.

caetano e chico
Que ela saiba que nada é impossível de mudar e que nada deve parecer natural.

Já anseio pelos anos em que ela estará maiorzinha e que ficará espantada em saber que houve uma época em que pessoas eram discriminadas por sua cor, opção sexual, pela profissão que desempenhavam e, pasmem, pela região em que moravam ou religião que professavam! E que, quando ficar um pouquinho mais velha, rirá quando souber que um dia pensaram que reduzir a maioridade penal era a solução para os problemas da falta de escola e oportunidades de lazer, entre outras negações dos direitos básicos dos jovens.

Porque por mais que às vezes eu demonstre meu pessimismo em relação a esse mundo cagado em que vivemos (sim, mundo, não vem com esse papinho de que tudo é ruim só no Brasil que essa síndrome de vira-lata já cansou), eu acredito na pessoas. Eu ainda acredito que as pessoas podem mudar e, por sua vez, mudar as instituições nas quais trabalham, vivem e circulam.

Bom, e por que mesmo lembrei de Travessuras de mãe nesse momento? Porque é um livro fofo da Denise Fraga que reúne dezenas de crônicas, publicadas anteriormente na revista Crescer. Lá ela conta diversas situações pelas quais passou com os filhos Nino e Pedro. E porque ela lida com muita leveza com os percalços de ensinar uma criaturinha nova a se encaixar, se ambientar e se impor  nesse mundo doido, sem deixar de transformá-lo quando necessário. Ah, e também porque, apesar de tudo que desenrolei nos parágrafos acima, são os filhos também que nos mostram o óbvio que às vezes esquecemos ou nunca vimos: “Filho faz você pensar muito. Você pensa na vida, no que você vai ser, no que eles vão ser, na melhor maneira de cumprir sua missão por aqui. […] O que sei é que é sensacional ter crianças em casa. Eles nos restabelecem a lógica. Nós vamos fazendo curvas e eles nos põem na reta, nos ajeitam o pensamento”.

Travessuras de mãe capaO que? Travessuras de mãe

Quem? Denise Fraga

Quando? 2010

páginas? 237

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5 comentários sobre “Travessuras de mãe

  1. Também espero e acredito que nossa pequetucha vai encontrar um mundo mais tolerante e bonito para se viver. E haja babador pra tanta tia babona! ;)

  2. Babacas sempre hão de existir (infelizmente). Mas, enquanto existirem amigas que ajudam a levantar o astral e colorir a vida, acredito que este mundo tenha solução. Beijo em cada uma das amigas.

  3. Pior do que ser um babaca por achar que algumas coisas são naturais, e outras não, é ver o povo ferrenho defensor das minorias se tornara aquilo que sempre abominou:
    intolerante contra a diferença.

    Hoje a palavra de ordem é, seja tolerante e respeitoso com os diferentes e as minorias, mas sejamos intolerantes e estúpidos com aqueles que defendem a “antiga moral”!! Acusemo-los de crime de ódio!!

    Na moda de hoje em dia, do “libertarianismo”, tudo é aceito, menos discordar dessa liberdade total, que tudo vire uma libertinagem, menos o direito dos conservadores lutar pela sua própria moral e ética.

    Se você fosse realmente tolerante, não chamaria os de opinião diferente da sua de babaca, mas de pessoas com pensamentos diferentes.
    E no final, se tornou aquilo que sempre desprezou: intolerante.

    Veremos qual linha de pensamento vai vingar no futuro próximo, apenas o tempo dirá.

  4. Sté, você conseguiu falar aqui umas coisas que tenho ensaiado para dizer a pequetucha há muito tempo. Outro dia, depois que um BABACA postou uma foto agredindo um morador de rua, eu disse pro meu chefe: “que dias estranhos esses que a minha filha vai vir ao mundo”. Isso me dá um certo medo de colocar outra vida no mundo e a sensação que tenho é que a geração dela será ainda mais BABACA que a nossa. Tomara que eu erre. Feio.
    Infelizmente, enquanto tivermos por aí BABACAS rotulando preconceito e intolerância como um culto à “antiga moral” e aos “bons costumes” essa minha sensação vai aumentando.

    O que eu desejo pra minha filha é isso, que ela tenha coragem de assumir todos os sonhos que quiser, sem ser intimidada por BABACAS detentores de discursos “antigos”. Que ela seja feliz e respeitada por tudo o que peitar. E que tenha sangue nas veias. Só isso. Amo ela.
    O pai da pequetucha

  5. Blood from your blood,

    Gostaria muito de saber o que é ou não natural para você e com base em quê você faz essa divisão. Com base no tempo? Com base no que seus avós faziam? Qual é o seu parâmetro? Se tiver um, diga lá, estou bastante interessada em saber, porque até hoje nunca consegui chegar a nenhuma conclusão sobre isso.

    Gostaria muito também de saber onde está a libertinagem em defender que as pessoas não sejam discriminadas por serem evangélicas ou católicas, ou espíritas ou qualquer outra coisa, por serem brancas, negras, amarelas. Defender que as pessoas não sejam agredidas por gostar ou não de pessoas do mesmo sexo.

    E, sim, acho babaca uma pessoa que não respeita os direitos da outra. Direitos como o de professar qualquer fé religiosa, de beijar quem se quiser, de se casar com quem quiser. Existe uma grande diferença entre ter opinião diferente e praticar atos criminosos por ter um pensamento diferente. E são esses últimos – que praticam atos criminosos por terem uma opinião diferente – que eu chamo de babacas: os que agridem homossexuais, que não respeitam as mulheres, que destratam idosos, discriminam negros.

    Ninguém está te impedindo de lutar por sua moral, nem por sua ética. Prova disso é que o blog é aberto a qualquer tipo de comentário, seja ele bem estruturado ou não, intolerante ou não, babaca ou não.

    E espero que no futuro não vingue uma única linha de pensamento, mas que as pessoas estejam dispostas a discordar sem ofender ou agredir.

    E espero também mais Lucas, Éricas e Luízas na dos pequetuchos que estão por vir.

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