Equador parte I

Sempre que escrevo um post para o blog fico pensando em quantos diferentes outros posts sobre o mesmo livro eu poderia ter escrito. Às vezes até fico na dúvida entre abordar um assunto ou outro, outras até faço uma miscelânea de assuntos. Mas a verdade é que, na grande maioria das vezes, acabo escolhendo um único aspecto para analisar, abordar, comentar ou divagar. Porque, mesmo ficando um pouco na dúvida, nunca consigo elaborar mais de um raciocínio do início ao fim. Tenho muitas ideias vagas, mas apenas uma que serviria como post. Dessa vez não. Equador me suscitou três pensamentos independentes e que poderiam ter sido tirados de três livros diferentes.

É por essa razão que decidi abrir precedentes aqui no pulaumalinhaparágrafo – afinal nada está tão fixo que não se possa mudar – e fazer três posts sobre o mesmo livro. No caso, Equador.

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Acho engraçado quando um leio um livro cujo autor não conheço a cara e depois me surpreendo com o seu rosto…não era bem assim que eu imagina Miguel Sousa Tavares enquanto lia Equador

 

Sempre que leio livros como esse volto a pensar em como os professores do ensino fundamental e médio aproveitam pouco a literatura em sala de aula. Bom, pelo menos era o que acontecia quando eu estava na escola: professores – com algumas exceções – insistindo em aulas monótonas de falatório e muita coisa no quadro. Se na minha época já era difícil manter a atenção dos alunos, fico imaginando agora, que a maioria deles carrega um mundo de informações – e distrações – no bolso da calça, no formato de um celular.

Acho mesmo que o ensino deveria ser todo reformulado (e acho que isso talvez esteja começando a acontecer, com a adoção do Enem, por exemplo, apesar de todas as falhas que ele ainda possa ter. Só de prezar por um conhecimento mais amplo e lógico em detrimento das fórmulas que eu nunca decorei, já acho válido). Acho o ensino de aptidões como a interpretação de textos – e de situações e da vida -, o pensamento lógico e a ética muito mais importantes do que a fórmula de multiplicação de matrizes.

Mas enquanto isso não acontece de fato, a utilização de projetos transversais nas escolas pode ajudar bastante. E aí entra o livro Equador, que tem Portugal e a colônia de São Tomé e Príncipe como cenário básico. O ano é o de 1905. Luís Bernardo, personagem principal, se torna ministro dessas ilhas sob a linha do Equador e tem a missão de descobrir a real situação dos trabalhadores das plantações de cacau. Ele precisa provar para os ingleses que a escravidão nas colônias não existem mais e que os milhares de negros trazidos da Angola estão ali, trabalhando de sol a sol, ganhando quase nada e vivendo em palhoças, por que querem. De cara Luís Bernardo ganha dezenas de inimigos: os administradores das roças que não querem que o que sempre deu certo e esteve certo mude agora. Os negros não sempre estiveram ali a trabalhar? Por que deveria ser diferente agora?

Não precisa nem ir muito mais fundo para mostrar que o livro é um prato cheio para as aulas de história. Os relatos descritivos do narrador sobre a fauna e o clima do lugar poderiam também facilmente serem trabalhados nas aulas de geografia. E aprofundando um pouco mais no tema da escravidão, temos muitos assuntos para aulas de filosofia ou sociologia. O constante embate de Luís Bernado com os administradores das roças cria dilemas dentro do próprio ministro, que não sabe muito bem que postura assumir. Trata-se de um tempo de mudanças (não só em relação a mudança do trabalho escravo para o trabalho assalariado, mas também de uma passagem da monarquia, que está se esfarelando, para uma possível república portuguesa) e as pessoas tendem a criar resistência contra mudanças…mas sobre isso eu vou falar no post seguinte.

Para sair de assuntos mais polêmicos, o livro também é excelente para abordar as diferenças linguísticas entre o português de Portugal e o português brasileiro, já que, por opção da editora, manteve-se a grafia do português da terrinha.

Ah, e a história ainda tem trechos picantes e cenas de sexo. Nada demais, mas o suficiente para atrair a atenção de adolescentes, garanto.

Equador-Companhia-das-Letras-Miguel-de-Souza-Tavares-Bons-Livros-para-LerO quê? Equador

Quem? Miguel Sousa Tavares

Quando? 2003

Páginas? 520

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