Equador parte II

Dando continuidade a série de posts sobre Equador…

Não quero parecer muito egocêntrica, mas acredito que a época em que vivemos agora é muito importante e de grandes mudanças. De conceitos, de ideias, posições. Tenho a impressão que antigamente as grandes modificações ocorriam em tempos mais espaçados. Em um século aboli-se a escravidão, no oooutro dá-se o direito ao voto às mulheres. Hoje parece que cada ano traz em si uma grande transformação!

E por isso talvez as pessoas antes tivessem mais tempo de assimilação entre uma mudança e outra que, ainda assim, não aconteceram sem lutas, protestos, greves, rebeliões. Porque transformações que vem fácil mudam só a fachada, não as estruturas. Só que se já era difícil consolidar as alterações com tanto tempo para que as pessoas se acostumassem, imagina agora, que elas não param de surgir?

Por essa e por outras considero a frase do autor português Miguel Sousa Tavares, solta pela boca do personagem João, melhor amigo de Luís Bernardo, a melhor do livro Equador: “Todas as éticas são evolutivas: o que hoje é normal, amanhã será horrendo e o que hoje é crime, amanhã será banal”.

A primeira vez que “topei” com a frase – antes mesmo de ler o livro –, achei difícil exemplifica-la, mas basta pensar um pouco para lembrarmos em como a escravidão já foi normal e hoje sabemos ter sido horrenda, e em como o casamento inter-racial já foi crime e hoje é banal. E essa mesma ética da qual fala Luis Bernardo varia não só através do tempo, mas também do lugar.

Em alguns momentos, em alguns lugares, a bebida onde hoje é natural, já foi proibida.  No Brasil era liberado beber e sair por aí com suas carroças, hoje só é possível fazê-lo arriscando-se a perder a carteira e a pegar uma multa pesada. O aborto já foi crime em países como o Uruguai, hoje não é mais – viva Mujica!.

kabul_1970

Mudanças, mudanças, mudanças…

Não sei se acredito de fato numa evolução, que as coisas estão melhores agora do que antes. Mas acredito na transformação constante como busca de algo melhor. Acredito também que as pessoas devem lutar pelas mudanças em que acreditam, assim como contra as transformações em que não acreditam, desde que com argumentos, não ofensas, nem agressões. E desde que saibam que argumentos como “sempre foi assim”, “mas e os bons costumes?”, e “na minha época isso não aconteceria” não são válidos.

A frase de João está aí para provar. E lembrando que o contexto é a ida de Luís para a Colônia de São Tomé e Príncipe para acabar com o trabalho escravo, João continua dizendo assim: “não podes chegar aqui e, em meia dúzia de meses, convencer todos os portugueses que cá estão há gerações, sofrendo desde sempre o que tu sofres há meses e com a contrapartida de, pelo menos, fazerem fortuna na vida, que todo o código de conduta deles, todo o edifício que ergueram e de que vivem está errado, porque tu trazes de Lisboa decretos ou instruções ou acordos secretos com a Inglaterra a que eles têm de passar a obedecer, de um dia para o outro. Tu podes ter razão, mas isso requer tempo, Luís. Tempo e persuasão”.

Equador-Companhia-das-Letras-Miguel-de-Souza-Tavares-Bons-Livros-para-LerO quê? Equador

Quem? Miguel Sousa Tavares

Quando? 2003

Páginas? 520

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