Equador parte III

Acho que, na verdade, o que me faltava era ânimo para sentar a bunda na cadeira e escrever três diferentes posts para um único livro. O que acontecia é que eu tinha várias ideias, me decidia por uma e ficava com preguiça de elaborar as outras…! Não digo que farei isso sempre, mas gostei da ideia. Quem sabe?

Voltando a Equador, neste terceiro e último post da série vou falar um pouco das ideias sobre relacionamentos que esse livro me suscitou. E para isso vou precisar contar um pouco mais do enredo da obra.

Como já expliquei aqui e aqui, o livro começa no ano de 1905 com o português Luís Bernardo sendo mandado, como ministro, para São Tomé e Príncipe. Digamos que, sua principal missão, seja provar para os ingleses que lá não existe mais escravidão. Se ele vai só fingir ou de fato acabar com ela, já é outra história. O que me convém explicar para este post é que para ter uma opinião definitiva, o britânico David é mandado para aquela colônia remota com sua mulher Ann. E porque ele é enviado para essa remota colônia? Digamos apenas que ele tinha aprontado umas e outras e que ser mandado para lá foi uma espécie de castigo e que Ann teve a chance de escolher acompanhá-lo ou não.

Enfim, lá chegando, não demora muito para que Ann comece a dar em cima de Luís Bernardo. E ele mergulha no romance. Trai a amizade que tinha estabelecido com David e vê sua relação com o amigo desandar e depois… bem, depois descobre que Ann não estava se fazendo de rogada e, além de Luís Bernardo, tinha arrumado outros pretendentes. E que nunca tinha passado por sua cabeça abandonar o marido para ficar com ele.

E por que estou falando disso? Porque fiquei pensando muito se achava que Ann estava ou não fazendo sacanagem com Luís Bernardo já que ela, apesar de dar esperanças, jamais abandonaria o marido e ainda arrumaria outros pretendentes que não ele. A princípio, sim, achei que ela foi meio sacaninha, mas… bom, fui mudando de ideia. Cada um vê apenas aquilo que quer enxergar e acredita apenas naquilo que lhe convém. E se Luís Bernardo não enxergou as verdadeiras intenções de Ann, é porque não queria ver.

imagem post

Esses dias mesmo estava conversando com uma amiga e chegamos a conclusão que por mais que a pessoa esteja falando alguma coisa pra “te enganar” e criar falsas esperanças, no fundo ela dá, sim, sinais que já indicam suas verdadeiras intenções. Não vê quem não quer. Quem nunca ficou com raiva porque fulaninho estava todo-todo, mandando mensagens cheias de intenções para daí uma semana começar a namorar outrem? Quem nunca? E a gente pensa “poxa, porque ele fez isso se não queria nada?”. Provavelmente porque estava entediado e conversinhas moles são divertidas. Ou talvez porque ele ainda não havia se decidido, vai saber. Ele está errado de agir assim? Não.

Existe todo um papo Pequeno princípe “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas” e que até parece fazer sentido, mas esses dias vi num blog que, na verdade, trata-se de um “erro de tradução”. No francês a expressão quer dizer que somos eternamente responsáveis por aquilo que mantemos em cativeiro, que aprisionamos. “Tu deviens responsable pour toujours de ce que tu as apprivoisé”. Ou seja, o pequeno príncipe se torna responsável pela rosa a partir do momento que a aprisiona, que a coloca numa redoma, e não por que a tinha “cativado”, ou melhor, “conquistado”. E aqui citarei o blog porque não sei se consigo expressar de forma melhor essa ideia: “não nos tornamos responsáveis por aquilo que cativamos coisa nenhuma, problema de quem ficou cativado, que absurdo isso! […] Normalmente, a “culpa” por qualquer sentimento é exclusivamente de quem o nutre”.

Claro que a coisa muda totalmente de figura se existe algum tipo de acordo entre as partes e se esse acordo é quebrado. Tipo, se estamos namorando e nos comprometemos a ser fieis, seria uma puta sacanagem sair ficando com qualquer um. Ou se, depois de um término, combinamos que seria difícil manter uma relação de amizade e que por isso seria melhor ficarmos afastados e a pessoa começa a ficar mandando mensagens – que levam a crer que ela quer uma reconciliação – mas depois some novamente. Enfim, são casos e casos. Não acho que existam culpados. A única coisa que acho é que cada um responsável pelo próprio sofrimento. Então, não, eu não fiquei com pena do Luís Bernardo, por ele ter sido ludibriado por Ann. Mas isso eu só consegui decidir depois de pensar um pouquinho. E me reservo o direito de mudar de ideia a qualquer momento!

 

Equador-Companhia-das-Letras-Miguel-de-Souza-Tavares-Bons-Livros-para-LerO quê? Equador

Quem? Miguel Sousa Tavares

Quando? 2003

Páginas? 520

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