Diários Susan Sontag [1947 – 1963]

Sempre gostei de diários. Não de escrever, mas sim de ler (mais fácil entrar na vida dos outros do que na própria!). Livros de cartas, auto biografias… gosto desse tipo de leitura que revela os pormenores significantes, o íntimo dos escritores tão acostumados a se mostrarem apenas por personagens. Daí deriva o fato deu já estar com as expectativas altas – completamente correspondidas – quando pus as mãos no primeiro volume do que será uma série de três livros que reúnem os diários de vida inteira de Susan Sontag.

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Pra dar rosto ao nome

 

Susan Sontag é uma escritora americana que, além de ensaios e romances, passou grande parte dos seus 71 anos escrevendo diários. Começou aos 15 e, quando morreu, em 2004, eram pilhas e mais pilhas de cadernos que seu filho, David Rieff, resolveu organizar, editar e publicar. Se ela tinha ou não vontade que esses diários fossem publicados é difícil ter certeza, mas é possível que sim, ainda mais quando lemos este trecho dos seus escritos: “Uma das funções (sociais) de um diário é exatamente ser lido escondido por outras pessoas, pessoas (como pais, amantes) sobre as quais o autor se mostrou cruelmente franco apenas no diário”.

Quando escrevi sobre o livro de Patti Smith comentei como era frustrante ler sobre uma pessoa que já tinha lido mil livros e conhecia tantos intelectuais que eu não conhecia nem de nome. Bom, essa sensação foi multiplicada por mil com Susan Sontag. Das listas e listas que ela fazia dos livros que já tinha lido ou que ainda iria ler, acho que não conhecia nem 10% – note que eu não falei que não tinha lido nem 10%…90% eu nunca nem tinha ouvido falar!

Quase abandonei o livro quando vi que ela leu “Os miseráveis” com apenas nove anos. E eu gastando tempo jogando bola e andando de bicicleta! Aliás, isso traz a tona um aspecto no qual eu não concordo muito com Sontag…ela dá muito valor às experiências literárias e cinematográficas, mas, de certa forma, menospreza alguns tipos de experiências que acredito que, sim, também acrescentam muito.

Mas depois de transpor essa barreira que nada mais é do que inveja literária, o que fica é uma grande sensação de identificação. Acho que esse é o grande mérito de diários e livros pessoais desse tipo. Mostrar que, no fundo, no fundo, todos os problemas são iguais. Em maior ou menor grau, em algum momento da vida, todo mundo se sente mais feio do que realmente é, menos atraente, menos inteligente ou capaz. Sente desânimos, angustias, sofre por amor. Acho que a diferença é como as pessoas lidam com esses problemas. E, olha, em alguns momentos, Susan não lida nada bem! O que é ótimo, porque me liberta para também não lidar muito bem com minhas questões…se ela pode, também posso!

Independente disso, ela nunca deixa de pensar sobre as situações e formular teorias, pensamentos… E isso sim eu considero de vital importância. Vai parecer meio fora do assunto, mas é como pensar num mundo melhor. O mundo perfeito irá, algum dia, existir? Não. E por isso devemos deixar de desejá-lo? Tampouco!

Algumas reflexões de Susan Sontag, para quem tiver ficado interessado:

“Lembro que manifestei admiração (+ sentimento de superioridade) quando Harriet uma vez em Paris disse que ela não sabia se já tinha estado apaixonada por alguém. Eu não conseguia entender do que ela estava falando. Eu disse que aquilo nunca tinha acontecido comigo. Claro que não. Pois para mim estar apaixonada é decidir: estou apaixonada + aferrar-se a isso, eu sempre estou bem informada.”

“Amar magoa. É como se oferecer para ser esfolada, e sabendo que a qualquer momento a outra pessoa pode simplesmente ir embora levando a sua pele.”

“Asseguro aos outros a liberdade que nego a mim mesma.”

“A vida emocional é um complexo sistema de esgoto. Tem de cagar todos os dias senão acaba ficando bloqueado. São necessários vinte e oito anos cagando para compensar vinte e oito anos de prisão de ventre. Prisão de ventre emocional, a fonte da “armadura do caráter” de Reich. Onde começar? A psicanálise diz: por um inventário do excremento. Dissolve sob um olhar contínuo – humorístico, no final das contas.”

Diarios Susan SontagO que? Diários Susan Sontag [1947 – 1963]

Quem? Susan Sontag

Quando? 2009

Páginas? 336

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2 comentários sobre “Diários Susan Sontag [1947 – 1963]

  1. Gostei da dica. Senti a mesma coisa em relação à quantidade de autores/músicos/artistas plásticos/etc vendo “Meia Noite em Paris”. É ruim porque a gente fica com uma sensação de ignorância cultural completa, mas, por outro lado, é bom porque abre um leque gigantesco a ser descoberto. Novas possibilidades, novas ideias que nos dão esperança de um dia, quem sabe, construirmos uma realidade mais justa. E é essencial que existam pessoas assim, com ideias assim, que nos inspirem a não desistir.

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