Vendo vozes – uma viagem ao mundo dos surdos

Quase todo livro traz em si grandes descobertas para o leitor, mas com Vendo vozes o que eu descobri foi um mundo inteiramente novo sobre o qual, apesar de já ter tido algumas curiosidades, nunca refleti muito. Cada frase era uma novidade.

Digamos que o objetivo de Oliver Sacks com o livro é responder questões sobre a linguagem e a importância dela para a humanidade e para cada um de nós. Apesar de já ser legal e de ter me trazido muitos novos conhecimentos, isso nem é o melhor do livro. Bom mesmo é o modo como ele resolve abordar a questão: adentrando no mundo dos surdos e fazendo um breve retrospecto de como os surdos e a linguagem de sinais têm sido encarados pelo restante do mundo ao longo dos últimos séculos e, principalmente, últimas décadas. A gente – ou apenas eu? – pensa tão pouco nas pessoas surdas e suas necessidades e formas de ver o mundo que o livro foi uma experiência reveladora.

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Eu poderia ter escolhido uma foto mais séria, mas achei essa tão simpática!

Até pouquíssimo tempo atrás, surdez era sinônimo de retardo mental. Grande parte dos surdos não desenvolvia muito bem capacidades lógicas e de raciocínio e eram excluídos do restante do mundo, algumas vezes vivendo reclusos em asilos e casas para pessoas com distúrbios mentais. Com o passar dos anos mudou-se um pouco essa ideia ao perceber que o problema com os surdos considerados retardados – estou usando os termos da época – não era neurológico, mas sim a falta de uma linguagem, pois surdos que viviam em comunidade e que desenvolviam sua própria linguagem, eram completamente capazes de elaborar raciocínios abstratos e complexos.

Nesse ponto Oliver Sacks discorre sobre como só pensamos e proposicionamos através da linguagem e que, sem a linguagem, qualquer um poderia ser considerado retardado. É a linguagem que nos diferencia e nos torna quem somos.

O problema é que, por muito tempo – e até hoje – o diagnóstico de surdez demorava a ser feito. Nem sempre por negligência, mas também por desconhecimento e falta de atenção dos pais. Quando descoberto, por mais que à criança ou ao jovem fosse ensinada a linguagem dos sinais, nem sempre todas as habilidades eram desenvolvidas – existem alguma teorias que afirmam que existe uma  idade certa e mais propícia para se se aprender a primeira língua (seja ela qual for), entre o segundo e terceiro ano de vida e que, depois disso, mesmo que aprenda-se uma língua, não será com a mesma fluência.

Mesmo considerando que a criança fosse diagnosticada precocemente, outro grande dilema que permaneceu por décadas – e que avançou e retrocedeu ao longo dos anos – foi: devemos ensinar a linguagem falada – mesmo sabendo que ela poderá nunca ser completamente assimilada – ou a linguagem de sinais às crianças surdas?

Outro problema – estão percebendo quantos níveis de dificuldades um surdo tem que enfrentar só por ter nascido? – é que, até bem pouco tempo atrás, a linguagem de sinais não era considerada uma linguagem! Teóricos e linguistas a consideravam, no máximo, uma forma de comunicação primitiva.

Por isso, muitos pais e instituições, como escolas, eram contra o ensino e aprendizado da linguagem de sinais. Foram precisos muitos estudos para provar que a língua de sinais é tão ou mais complexa que a língua falada e que possui sim, uma gramática intrínseca (dá uma olhada neste dicionário “3D” da língua de sinais americana! . Ao longo dos séculos, sempre que surdos conviveram juntos, elaboraram algum tipo de língua de sinais. Praticamente todo país ou região possui sua própria língua de sinais. Existe a língua Brasileira de Sinais, a Língua Americana, a Britânica… entretanto, um fato interessante é que todas elas tem uma certa base comum, mesmo que tenham sido desenvolvidas em lugares e épocas distintas.

Um turista brasileiro ouvinte e fluente apenas em português que viaje para o Japão terá sérias dificuldades para se comunicar por lá. Pode ficar anos no país sem chegar a entender o básico da língua japonesa. Já um turista brasileiro surdo, fluente apenas na linguagem brasileira de sinais que viaje para o Japão, não terá grandes dificuldades em conversar com um japonês surdo que fale somente a linguagem de sinais japonesa. Já de cara eles conseguirão estabelecer uma comunicação básica por meio de sinais que são comuns e parecidos e também pela grande habilidade que os fluentes em linguagens de sinais – qualquer que seja – possuem em fazer mímicas e de se comunicar por expressões faciais, por exemplo. Em poucas semanas eles já estarão conversando sobre praticamente qualquer coisa. Invejável, não?

Se ainda resta alguma dúvida sobre a existência ou não de uma Linguagem de sinais, o que você me diz desses poemas na linguagem de sinais?

Tente não ler a legenda e concentrar apenas nos sinais

Para fechar, vou relatar um trecho muito bonito desse livro, que vale ainda mais a pena em tempos de intolerância contra as minorias:

Enquanto ainda pesquisava sobre o tema, Oliver Sacks ficou sabendo de uma região nos Estados Unidos onde quase 50% dos habitantes eram surdos e onde surdos e ouvintes eram fluentes na linguagem de sinais. E era por meio dessa linguagem  que a maior parte da comunicação do região acontecia. O autor entrevista alguns moradores mais velhos sobre outros moradores do local e os depoimentos são sempre muito afetuosos. Mesmo sobre os que já morreram, os moradores contavam como eles, em vida, eram atenciosos, legais, carinhosos, entre outros bons adjetivos. Quando perguntado por Oliver se tal morador era surdo, o entrevistado dizia: “ah, sim, é verdade, ele era surdo”. A surdez não era uma característica definidora, porque o que contava mesmo eram as características afetivas e também porque, nessa comunidade, os surdos não eram excluídos.

capa vendo vozesO que? Vendo Vozes – uma viagem ao mundo dos surdos

Quem? Oliver Sacks

Quando?

Páginas? 215 – o livro mesmo vai até a 135, o resto são notas e referências bibliográficas!

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