Manifestação em BH – 22 de junho

No caminho de volta para casa, fiquei pensando bastante sobre escrever ou não sobre isso. A falta de distanciamento e as emoções tão fortemente mexidas podem gerar ideias erradas, opiniões passageiras e altos índices de arrependimento. Mas por mais que eu venha a mudar de opinião sobre o que aconteceu e o que vem acontecendo, por mais que um dia eu desaprove o que a Stéphanie de hoje pensou, é inegável que ela pensou e sentiu tudo o que vem abaixo. Os sentimentos que estou tendo agora podem mudar, mas nunca deixarão de ter existido.

Também é preciso dizer que, quando saí de casa hoje para protestar, lutava contra a cura gay (não é possível curar algo que não é doença, que só é amor), contra o ato médico, contra a diminuição das passagens às custas da redução dos impostos (tem que tirar é o lucro dos oligopólios de transportes, não dos impostos que pagamos), ainda mais sendo de cinco centavos. Não saí querendo o impeachment da Dilma (até porque, enquanto ainda tivermos que votar no menos pior, meu voto é Dilma. Aécio never!), nem acabar com o bolsa família ou o bolsa escola.

Tendo dito tudo isso, é possível começar o relato do que começou como uma manifestação pacífica. Na Praça Sete, as bandeiras eram múltiplas (vi até um “free Palestine” por lá), mas a intolerância contra o as bandeiras (políticas ou não) pareciam ter ficado em casa. Quando alguns gritavam “Fora Dilma!”, outros berravam “Não Vire à direita” ou empunhavam cartazes com os dizeres “O <3 fica do lado esquerdo”. A disputa estava na rua, nos berros de quem protestava, e parece ainda não ter um vencedor.

E tudo continuou assim até chegarmos à UFMG. Alguns já tinham passado da Avenida Abraão Caram e ocupavam a Antônio Carlos até onde a barreira deixava. Outros tinham subido a própria Abraão até onde dava. Foi quando comecei a escutar as primeiras bombas e balas de borracha. E ver a primeira correria. Não sei quem começou. Até onde eu sei, os manifestantes tentavam apenar subir. E os policiais começaram a tacar bombas cada vez mais longe e a encurralar cada vez mais as pessoas. Mas independente de quem começou, comparar pedras de quem está quase nu com quem veste capacete, escudo e colete e usa bombas e balas de borracha me parece desleal.

Nesse momento, eu estava em cima do viaduto Angola, o que liga a Antônio Carlos com a Abraão Caram e comecei a ver muita gente correndo, passando por baixo, fugindo, subindo a Antônio Carlos de volta e, logo depois, a polícia, à cavalo, atrás, encurralando. A princípio, os que estavam em baixo começaram a se sentar, para mostrar que não queriam combate. Mas a tropa continuou avançando e aos poucos os manifestantes foram se levantando e andando para trás. E começaram a atirar pedras e paus nos policiais.

Desci do viaduto para não levar pedrada e o próximo momento aconteceu num piscar de olhos e foi ele que motivou todo o meu texto, pois sabia que, por mais que ainda não entendesse tão bem o momento, jamais gostaria de esquecê-lo. Quando fechei os olhos, os manifestantes recuavam. Quando abri de novo, não sei como, milhares corriam, de peito aberto, em direção aos policias à cavalo e, no berro, botaram a cavalaria para correr. Tenho certeza que assim, em frases, não dá para entender o significado, mas é o mais próximo que eu consigo chegar agora.

Sei que nesse momento íamos recuando. Parávamos quando dava, recuávamos quando a tropa avançava muito e o gás ficava insuportável. Num outro piscar de olhos, eu e meus amigos, que tentávamos não ficar muito vulneráveis, mas também não queríamos arredar o pé, nos vimos, sem querer, na linha de frente. Foram alguns segundos de pânico. Mais do que o medo de levar bala de borracha na testa foi o sentimento de saber que alguns segundos antes, quando estávamos mais para trás, estávamos protegidos porque alguns estavam nessa mesma nossa posição de agora, levando gás e bala de borracha no nosso lugar.

Nessa hora estava impossível respirar e houve grande pânico e correria e, por fim, todos voltavam, o mais rápido que podiam, subindo a Antônio Carlos. Não havia mais resistência e todos estavam de costas, andando em direção ao centro novamente, vencidos. Foi quando bombas de gás começaram a ser arremessada, de muito longe, dentro da manifestação que já voltava! E a polícia veio vindo muito tempo atrás com bombas e balas. E aí, não teve mais jeito. Depois de apanhar tanto, os manifestantes revidaram no que podiam. E começaram a quebrar tudo. Tudo o que viam pela frente.

Alguns tentaram gritar “Sem vandalismo”. Ao que outros responderam “Vem passar fome”. Porque se alguns ali estavam revoltados por terem apanhado tanto nas últimas horas, outros estavam revoltados por virem apanhando há anos. E quem tem a razão nesse momento? Aos poucos, os berros de “Sem vandalismo” deram lugar aos de “Sem moralismo”.

Mais uma vez, com medo de me posicionar numa situação tão delicada e sobre a qual ainda não tenho opinião formada, não vaiei (por que, sinceramente, protestar sem incomodar também não muda nada e depois de tanta covardia fica difícil segurar os ânimos), nem aplaudi (porque também não é necessário insuflar ainda mais quem já está pegando fogo) os que quebravam, bancos, concessionárias e lojas. Talvez eu cometesse um erro me posicionando naquele momento. Talvez o erro tenha sido justamente não me posicionar. A única coisa que gritei sem medo de me arrepender foi “O BRT não! O BRT não!”.(ninguém aguenta mais anos de obras).

Depois disso virei na Bernardo Vasconcelos e já não sei mais o que aconteceu. Há pouco ouvi relatos que o centro está destruído.

O que? Manifestação em BH
Quem? Eu mais 150 mil, talvez?
Quando? Dia 22 de junho de 2013
Páginas? Ainda a ser descobert

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6 comentários sobre “Manifestação em BH – 22 de junho

  1. Queria ter estado lá! Braço maldito…tentei ir e ele foi só inchando.
    Também tô com dificuldade de falar o que eu acho que deveria ou não estar rolando…Mas acho que o mais certo é isso mesmo, não deslegitimar o discurso e a forma de se manifestar do outro.
    E também só acho possível criticar estando presente.
    De qualquer forma, mesmo não sabendo que corpo isso vai tomar a gente tem que continuar falando e conversando!

    1. Da mesma forma que a manifestação precisa incomodar para conseguir pressionar por mudanças, a polícia também precisa incomodar se quiser ter algum sucesso na tentativa de gerar ordem. Não dá para esperar que a manifestação seja uma passeata da paz e não dá para esperar que a polícia tente controlar uma multidão, preventiva ou reativamente, apenas na base do grito. Numa situação assim, o caos vem como uma resposta natural. E na pele o caos não é algo romântico, eu não estava lá e só por tentar pensar já sinto embrulhos no estômago. Não concordo inteiramente com nenhum dos lados, os dois carregam uma dose de razão e calor, mas dá para entender de onde surgem os excessos. Os excessos não são agradáveis, mas espero que ajudem a trazer de fato melhores dias por aqui.

  2. Oi Stéphanie, Estou querendo fazer um vídeo com depoimentos das pessoas que estão indo às manifestações e acompanhando de perto os acontecimentos nas linhas de frente. Gostaria de saber se você teria interesse em passar seu relato. Se sim entre em contato comigo para mais detalhes. Meu e-mail é brunordiniz@gmail.com. Abraços!

  3. Oi Stéphanie, também estava lá. Perto das bombas, das balas de borracha e correndo por baixo e por cima do viaduto José Alencar.
    Belo texto! Você conseguiu expressar um pouco da tensão vivida ali. Alguns momentos foram de arrepiar.

    Tenho esperanças que as coisas mudem, principalmente aqui em Beagá e em Minas.

    abs

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