Mineirinho

Mineirinho é uma crônica escrita por Clarice Lispector em 1977 sobre o assassinato de um criminoso, na época apelidado de “mineirinho”. Em vez de focar nos crimes cometidos pelo bandido, Clarice aponta o absurdo de se concretizar com 13 tiros o que poderia ter sido feito com apenas um.

Claro que aqui já estamos passando por cima de uma discussão anterior, a de que não se deveria haver tiro nenhum, que recorrer a essa solução já é a primeira derrota. O assassinato em si já é uma barbárie que deveria causar choque suficiente. Mas mesmo que passemos por cima do que já é uma questão inviolável (a de não agressão) o que aterroriza nessa situação, mais que tudo, é o número de tiros que representa a loucura de quem os proferiu.

Foi por acaso que cheguei neste texto, se é que se pode chamar de acaso encontrar justo essa semana um texto de 1977 que expressa toda a revolta que senti durante a Manifestação do dia 22 de junho de 2013. Mas sim, foi por acaso. Foi por acaso que assistia à última entrevista concedida pela escritora antes de morrer e foi por acaso que fixei no 12º minuto da gravação, quando o entrevistador pergunta à autora quais são os textos que mais a marcaram. E um deles é o “Mineirinho, que morreu com treze balas quando uma só bastava”.

E o jornalista pergunta qual o enfoque que Clarice deu ao trabalho. Ao que ela responde: “eu não me lembro muito bem, já foi há bastante tempo. Qualquer coisa assim como: o primeiro tiro me espanta, o segundo tiro… não sei o que, o terceiro… o décimo segundo me atinge, o décimo terceiro sou eu”. Era segunda-feira quando eu assistia ao vídeo, dois dias depois dos episódios ocorridos na manifestação, e eu simplesmente choquei com a maneira que aquilo tudo me representava. Para mim, a atitude da polícia naquele dia de protestos foi a de quem disparava o décimo terceiro tiro. Encurralar e atacar pessoas que estavam de costas, sem oferecer nenhuma resistência, é disparar o décimo quarto.

No caso dos protestos, as bombas de fato me atingiram. Mas o que me deixa intrigada é como que depois de muito mais de 13 tiros e 13 bombas, a população, de um modo geral, não se sente atingida. E como ela não se sente atingida ao ouvir anúncios como o “quem sair para rua na próxima quarta está cometendo suicídio” ou “Eu espero que, na próxima manifestação, a PM prenda mais. Prendeu muito pouca gente. A PM não está usando toda a força que tem, inclusive não está usando cassetetes”.

O trecho, que Clarice não consegue se lembrar muito bem, é o seguinte:

“há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha, o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula, no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.”

Fica até difícil continuar depois desse trecho, mas Clarice não afrouxa o lápis:

“Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas conseqüências, mas em si inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.
Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco de nos entendermos.”

Como chegamos ao ponto de fechar os olhos para a violência que nos assola todos os dias? De certa forma, me envergonho um pouco por estar escrevendo este texto apenas agora, depois de ter sido eu o alvo da violência que acontece todos os dias. Porque, na verdade, já deveria ter me indignado e me prestado a esse trabalho muito antes, quando, assim como Clarice, o atingido era o outro.

Mas isso veio agora, e como já disse por aí: para mim a manifestação de amanhã já não é mais sobre transporte, saúde, educação. Amanhã eu vou para a rua porque eu não aceito que me digam onde eu posso ou não ir, nem que me aterrorizem com cassetetes. Falar que quem sair para as ruas amanhã estará cometendo suicídio (além de um atestado de incompetência da própria polícia) é uma afronta.

Outro trecho de Clarice:

“Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento”.

E, para fechar:

“Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um inocente”.

A crônica inteira pode ser lida aqui.

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