esclarecimentos e reflexões

Não que alguém realmente se importe, mas eu gostaria de me abrir e explicar porque tem alguns dias (semanas?) que não posto por aqui.

Durante todo o rebuliço criado na época das manifestações, fiquei muito envolvida e tomada pelo assunto. Para mim era difícil não pensar, conversar, questionar e render o assunto com colegas de trabalho, amigos, familiares, pessoas random do facebook. Até aqui, num blog de literatura, digamos assim, eu arrumei espaço para falar delas, as manifestações.

Inclusive, acho que esse é/foi o grande saldo positivo deixado por todas essas manifestações: os espaços de conversa que foram abertos e diálogos levantados. Pessoas que passaram a pensar coisas em que nunca haviam pensado antes, pessoas mudando de ideia, pessoas debatendo.

E uma das coisas que percebi – e que cheguei a discutir em rodas de conversas – é que o que ainda falta é que as pessoas se posicionem e assumam seus pontos de vistas não só durante as manifestações, ou nas esferas pessoais, mas também no seu trabalho do dia a dia. E não tô falando do velho discurso “a mudança começa dentro de nós” e “se todo mundo se preocupasse em fazer sempre o certo, não haveria coisa errada no mundo” por que a vida simplesmente não é desse jeito, né? Acho que, de maneira geral, todo mundo tenta mesmo sempre fazer o certo, mas a concepção de certo e errado é tão subjetiva e dividida por uma linha tão tênue…

Vou explicar melhor o que quero dizer.

Por exemplo, até consigo entender que as pessoas falem mal da globo, porque ela manipula a informação, mostra apenas um lado e blablabla. Como instituição, a globo (e qualquer outro grande canal de comunicação) vai tentar defender o que é melhor para a instituição. Acontece que a globo – o jornalismo da globo – é feito de pessoas! E o que eu não consigo entender é que essas pessoas não se posicionem num cenário desses por que estão dentro de uma instituição e precisam seguir os preceitos ou o “regimento” da instituição! O que eu não consigo entender é que um jornalista se preste ao papel de dar uma informação equivocada. Às vezes o jornalista pode não achar que informação está equivocada, pode acontecer dele realmente concordar com o que está dizendo, então, nesse ponto, ok. Mas eu não acredito que todos os jornalistas que trabalhem lá concordem com o ponto de vista recorrentemente retratado. E por que eles não se posicionam? E não aceito o discurso do “são ordens que vieram de cima” ou “a matéria chegou desse jeito para mim, eu só reportei”. Não! As pessoas têm responsabilidade por aquilo que fazem, mesmo num ambiente de trabalho, inseridos num contexto de uma instituição. A culpa não é da Globo! Acho que às vezes se intitucionaliza demais as críticas e esquecem que temos por trás de toda boa e má escolha uma ou várias pessoas, e não uma instituição de concreto e aço.

Outro exemplo: uma pessoa que não tope participar das manifestações por que trabalha para a prefeitura (ou em outra esfera governamental) e tem medo de ser demitido. Ou então alguém que defenda o aborto, mas não tem coragem de falar e abordar isso dentro de sua tradicional família mineira.

Enfim, o ponto é:não entendo pessoas que não se posicionem e que não usem do seu lugar estratégico dentro de uma instituição (seja ela midiática, governamental ou familiar) para abrir canais de diálogos e debate. Gente que vê uma coisa que considera errada e não fala nada por preguiça ou medo de ser repreendido. Gente que acha que ser cidadão é votar de dois em dois anos! Pessoas que se escondem atrás de um trabalho burocrático ou do escudo de estar num cargo inferior e do medo de ser demitido.

Claro que falo isso de um lugar privilegiado. Sou uma pessoa que trabalha numa instituição do terceiro setor e que tem a liberdade de levantar qualquer bandeira, seja ela qual for (mas, opa, será que eu já não escolhi trabalhar nesse lugar justamente por acreditar que todos devem ter o direito de se posicionarem, sem se sentir oprimido e com medo de ser repreendido ou demitido por conta de uma visão de mundo?).

E por que eu tô desenvolvendo essa ladainha toda só para explicar o motivo pelo qual eu não tenho postado no blog? Por que com o recente clima exaltado de mudanças e de protestos eu fiquei pensando: “poxa, tanta coisa pegando fogo, tanto assunto sério sendo discutido e eu vou ficar aqui falando de literatura?”. Enfim, eu dei uma broxada, achando que nada disso aqui era importante frente a todos os acontecimentos ainda em andamento.

Mas daí, nos últimas dias, eu comecei a pensar: “pera, uma das minha grandes discussões com as pessoas, recentemente, não tem sido justamente sobre essa necessidade que acredito existir das pessoas se posicionarem mais politicamente nos ambientes em que frequentam? E se eu tenho um blog que, querendo ou não, pelo menos algumas pessoas leem, eu não deveria estar utlizando dele para me posicionar?”. E depois eu pensei: “pera, já não é justamente isso que eu venho fazendo? Sempre me aproveitando de uma história para abordar temas que acho importantes?”

E foi nessa linha de raciocínio que eu me lembrei de uma coisa que sempre acreditei, mas que por alguns momentos esqueci…que é o fato deu considerar a literatura o melhor modo de acessar o mundo. Se aprende e se pensa muito mais com um bom romance do que com quase qualquer outra coisa.

Bom, isso tudo para dizer que, em breve, tem post novo. Post sobre Barba ensopada de sangue, do Daniel Galera.

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2 comentários sobre “esclarecimentos e reflexões

  1. Bom, eu particularmente me ausentei do último dia de manifestação (o único que não fui) pra me preservar, mas isso não apaga todo o meu histórico de ativismo em direitos humanos e, além do que me permite continuar na barriga do monstro tentando miná-lo por dentro, já que o leviatã é a junção de várias vontades (pessoas), acho importante representar o dissenso. Creio que é um pouco simplista dizer que aqueles que não foram pra linha de frente diretamente acreditam que a política se faz pelo voto simplesmente. É ignorar que tudo nessa vida tem mais de dois lados e é muito mais complexo do que um simples olhar apaixonado pode denunciar. Sei lá. A crítica é válida, claro. Mas muitos do que estavam lá na manifestação estavam porque todos estavam, porque seus amigos estavam, sem nenhum vislumbre do que significa se apossar da rua, da coisa pública. Particularmente faço parte de uma parcela da sociedade que sempre esteve nas ruas, desde as primeiras manifestações em Bh, eu não acordei agora, como muitos outros que não foram também. Toda generalização sobre este momento histórico tende a um olhar míope. My opinion.

  2. Acho que você me interpretou de maneira errada. O que quis dizer com esse post é justamente que não adianta porra nenhuma ir às manifestações se você, no seu dia a dia, é o complacente com as coisas ao seu redor. A bandeira que eu levanto nesse post é a de, justamente, que as pessoas têm que defender seus ideais e suas ideias nas instituições em que trabalham, tentando mudar por dentro mesmo. O que tô dizendo é justamente que: Não existe “o estado” ou “a globo” ou “a tradicional família mineira”. O que existem são pessoas que estão lá dentro fazendo o que podem – ou não. Se você se diz dentro da barriga do monstro tentando miná-lo por dentro, ótimo! É justamente esse tipo de posicionamento que estou elogiando e tentando levantar nas pessoas.

    Olha só o que eu disse:
    “E uma das coisas que percebi – e que cheguei a discutir em rodas de conversas – é que o que ainda falta é que as pessoas se posicionem e assumam seus pontos de vistas não só durante as manifestações, ou nas esferas pessoais, mas também no seu trabalho do dia a dia.”

    Em nenhum momento eu deixei de entender que existem muitos lados de qualquer histórias. O que eu disse é que esses lados têm que se posicionar. E o que eu disse também é que cada um tem seu jeito de se posicionar no mundo. O meu é escrevendo ladainhas aqui, entre outras coisas.

    Exatamente por eu não achar que basta ir nas manifestações que eu disse que me animei novamente a escrever. Escrever é uma coisa que eu amo. ler é minha paixão. E eu firmemente acredito que a literatura é a melhor forma de acessar o mundo e que ela muda as pessoas. Logo, me sinto no dever de, quando escrever aqui, sempre me posicionar, porque não basta que eu me posicione numa manifestação ou só de dois em dois anos, através do voto. Eu tenho que me posicionar diariamente. Quando vejo algo que não concordo na padaria ou mesmo dentro de casa ou no lugar em que trabalho ou na escola em que eu estudo.

    Mas achei engraçado você fazer essa leitura. Há muito tempo que eu sei que ninguém jamais lerá exatamente o que eu quis dizer. cada um interpreta de acordo com as suas referências. Fiquei pensando que referências te fez ler quase que o oposto do que eu estava querendo dizer…

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