Barba ensopada de sangue

Foi bom ler um livro de um escritor brasileiro contemporâneo ainda vivo para variar. Ótimo livro, por sinal. E engraçado por que como a maioria dos livros que leio são antigos, é até meio esquisito me deparar com personagens que usam facebook e fazem referências a acontecimentos desta década. Fiquei pensando muito sobre como eu não tenho lido nada de escritores brasileiros recentes e Barba ensopada de sangue foi uma boa surpresa. Mas, além do enredo, que cativa e prende, e personagens interessantes, o que me marcou mesmo foi a paisagem no qual o romance se desenrola.

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Achei divertido o livro ter três versões diferentes: azul, verde ou vermelho, à escolha do freguês

Já no iníciozinho do livro o personagem principal se muda para uma pequena cidade litorânea, no interior de Santa Catarina: Garopeba. A simplicidade da vida que o personagem (cujo nome não é citado ao longo da história) leva me invejou. E quando digo simplicidade, não me refiro à simplicidade emocional. Os dramas e as tramas da cidade e seus moradores são tão ou mais profundos do que encontramos numa cidade grande, por exemplo. Mas talvez seja justamente isso: com uma vida materialmente mais tranquila, dá para se preocupar mais com o mais importante.

Assim que se muda de Porto Alegre para a cidadezinha, o personagem vende seu carro, aluga uma casinha beira-mar e arruma um emprego de instrutor de natação numa academia local. Isso tudo me fez refletir ainda mais sobre as amarras que nós, ao longo dos anos, vamos criando. Dos nós que vamos dando e da corda que nos colocamos no pescoço.

Este ano tem sido de entrada no mundo adulto – ou seria no da burocracia? – para mim. E devo dizer que não estou gostando nada disso. Finalmente consegui um carro. E o que ele significa? Liberdade? Anrã Significa que eu agora tenho que me preocupar com o IPVA, com o licenciamento, com o seguro obrigatório e o seguro do carro. Significa que estou sujeita à multas e a mais um código, o de trânsito. Significa que eu vivo com medo de bater, de ser roubada, de ser multada, de ter esquecido de pagar alguma coisa.

Se eu bato o carro – o que eu agora faço com frequencia- tenho que ir na delegacia, tenho que registrar ocorrência, tenho que entrar em contato com o seguro, pagar o sinistro – sinistro! – levar meu carro na oficina, ficar dias sem o carro – liberdade! – para depois buscá-lo e recomeçar tudo mais uma vez.

Aí eu tô aqui juntando meu dinheirinho para comprar um apartamento que vai significar: IPTU, condomínio todos os meses, contas de água, luz, telefone, internet, TV à cabo. O que estou querendo dizer é que cada coisa a mais que adquirimos significam um monte de coisas que a gente já nem pensa mais a respeito. Eu odeio pensar que adquirir uma coisa me responsabiliza para sempre. Tipo. Eu não compro, pronto, é meu. Eu tenho que declarar, eu tenho que avisar se eu tô vendendo e ser devidamente cobrada por isso!

Quando será que a vida começou a ficar tão complicada? E será que quando isso aconteceu as pessoas perceberam? Será que foi uma coisa tão gradual que, quando percebemos, já estávamos nela, num caminho sem volta?

Eu, quando paro pra pensar nisso tudo, acho muito irracional esse sistema complexo que criamos para viver em sociedade. Para mim, o exemplo mais sintomático dessa irracionalidade se traduz no “estabelecimento”chamado: cartório. Eu tenho vontade de morrer toda vez que preciso de um. Quer coisa mais estúpida do que reconhecer firma??? Eu pago para um cara aleatório qualquer virar para mim e dizer e confirmar: “unrum, essa assinatura é sua mesmo”. O QUE ISSO MEU DEUS?

Uma vez, conversando com uma pessoa mais velha, falávamos das amarras que cada geração de jovens escolhe ter. Antigamente era o casamento e os filhos precoce que “impediam” a liberdade dos jovens. Não dava para tomar qualquer atitude irresponsável ou impensada tendo filhos para criar.

Não é mais o que acontece. Os jovens de hoje estão livres das amarras “familiares”. Estão presos apenas às prestações infinitas de sua casa – sua vida – de seu carro do ano, da universidade financiada a perder de vista.

Qual será a amarra da próxima geração?

barbaO que? Barba ensopada de sangue
Quem? Daniel Galera
Quando? 2012
Páginas? 423

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2 comentários sobre “Barba ensopada de sangue

  1. Eu não me sinto tão amarrado nesse sentido, mas nem por isso acho que a liberdade tenha um sabor tão leve. A responsabilidade que temos em cada escolha assusta muito frente ao mar de opções que temos e aparecem muitas incertezas, ainda mais diante do fato de que toda escolha implica também renúncias. Tem horas em que isso de ser “livre” parece tão complicado que chega a pesar como um fardo (já cheguei a pensar “liberdade é o caralho, eu quero uma cela que eu ache confortável”).
    Por outro lado, adquirir bens e “fazer carreira” pode trazer uma série de dores de cabeça e acabar nos engessando numa rotina. A cabeça martela com a pergunta se é isso mesmo que queremos. O desejo de uma vida mais simples é recorrente. E, ainda assim, parece difícil fugir desse caminho de “construir currículo e patrimônio”.
    (Salvo raríssimas exceções, também não leio autores contemporâneos, quanto mais brasileiros e jovens. Deveria. Valeu a dica.)

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