La mala hora

“La mala hora” me ajudou a fazer as pazes de forma definitiva com Gabriel García Marquez. É que depois que você lê uma história como “Cem anos de solidão”, é inevitável não esperar que todos os outros livros do autor sejam tão ricos e tocantes quanto. E se depois de um livro como “Cem anos de solidão” você acaba lendo “Crônica de uma morte anunciada”, que nem de longe é ruim, mas é apenas “Ok”, digamos que a decepção bate com força.

gabriel garcía marquez

“He aprendido que cuando un recién nacido aprieta con su pequeño puño, por primera vez, el dedo de su padre, lo tiene atrapado por siempre” (retirado do facebook do autor)

Minha esperança começou a reacender quando li “A revoada”. Mas só agora, depois de “La mala hora”, é que me satisfiz de vez. Assim como em “A revoada”, alguns personagens de “La mala hora” fazem parte do universo de Macondo, cidade onde se passa a narrativa de “Cem anos de solidão”. Mas não é isso que faz de “La mala hora” um livro atraente e gostoso de se ler, mas sim os seus personagens, um mais interessante que o outro, com nuances e características bem marcantes. Fora que a história, de uma cidade em estado de sítio, me fez pensar muito na atual situação em que vivemos. No Brasil e no mundo. Mas é assim mesmo, né?, nada é exatamente novo. As histórias apenas se repetem, infinitamente.

Outra coisa que achei muito interessante foi um diálogo entre o padre e um morador da cidade, já lá pelo fim do livro. Mas para falar desse diálogo é preciso antes uma pequena contextualização.

De uma hora para a outra, começam a aparecer nas paredes do povoado onde a história se passa,  pasquines, que nada mais são do que cartazes com fofocas sobre os moradores. Aquele tipo de fofoca que todo mundo tá cansado de saber e cochichar pelos cantos, mas que ninguém tem coragem de falar em voz alta. E esses pasquines começam a causar grande rebuliço – até mesmo um assassinato – e são a causa – ou seria desculpa? – para se decretar o estado de sítio.

Bom, feita a contextualização, padre e personagem conversam sobre quem seria o autor dos tais pasquines e o padre se diz convencido de não serem certos moradores da cidade, ao que o personagem pergunta como ele poderia ter tanta certeza. O padre responde que a certeza e a tranquilidade vem do fato de que, no confessionário, esses moradores não se acusaram. E o outro personagem retruca algo como: “bom, se eles não falaram nem em confissão, daí é que você tem mesmo que se preocupar”.

E o mais engraçado é que somente nessa hora o padre percebe que a confissão não é garantia de absolutamente nada. E daí ele começa a se dar conta de muitas outras coisas ao seu redor e de como as pessoas não contam tudo o que se passa com elas, nem quando está subentendido que elas têm todo o direito de fazê-lo.

E isso tudo me lembrou muito um diálogo que, certa vez, tive com um amigo. Ele estava me contando como existem coisas que ele não conta nem para o terapeuta. E essa mesma fala se repetiu com outros amigos meus, que alegavam que, certos assuntos, não são para serem abordados nunca, nem em terapia. Bom, quem sou eu pra falar alguma coisa disso, eu que nunca me confessei, nem nunca fiz terapia. Mas eu sempre acreditei que 90% de todos os problemas do mundo, e das pessoas, seriam resolvidos se falássemos o que se passa dentro da gente. Se nos abríssemos sobre nossas vontades e desejos, sobre o que nos aflige ou nos amedronta. Não que eu sempre consiga fazer isso, claro…

La mala horaQuem? Gabriel García Marquez

O que? La mala hora

Quando?

Páginas? 199

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