Felicidade clandestina

Sempre que algum amigo vem me contar algo do tipo: “nossa, fulano é muito bobo, olha o tipo de brincadeira que ele faz”, eu sempre tento amenizar a situação dizendo outro algo do tipo: “ah, mas você está falando isso porque não gosta do fulano. Se eu, que sou sua amiga, tivesse feito a mesma brincadeira, você talvez até tivesse achado graça…fulano poderia ter dito qualquer coisa que você teria achado ruim de qualquer jeito…”.

Sim, porque quando a gente gosta de alguém, já está predisposto a gostar de tudo relacionado a esse alguém. A gente se torna até meio indulgente, apreciando coisas nem tão boas assim devido ao histórico de amizade. Esse alguém precisa pisar muito na bola para que a gente dê um basta.

E eu sempre achei que as pessoas fossem muito indulgentes com a Clarice Lispector. Por algum motivo ficou famosa e renomada, morreu e deixou para traz uma aura de glamour. As pessoas tendiam a gostar de qualquer coisa relacionada a ela, até mesmo citações descontextualizadas publicadas no facebook.

clarice-lispector1

 Ha! Vou me segurar e não vou colocar nenhuma citação de Clarice nesse post!

Bom, talvez eu que estivesse sendo injusta ao julgá-la tendo lido apenas um de seus livros: “Laços de Família”. Mas a verdade é que achei o livro bem entendiante. Quer dizer, não chegava a ser chato, mas também não trazia nada demais, nenhum toque especial. E a única coisa que eu conseguia pensar era: “então isso é Clarice Lispector?”.

As coisas começaram a mudar quando li uma crônica dela: Mineirinho. Crônica que eu já publiquei aqui no blog, para falar das manifestações de junho. Só sei que, depois de Mineirinho, eu passei a pensar: “Uau, então isso é Clarice Lispector?”.

E foi aí que talvez eu tenha me tornado indulgente com Clarice. Ganhei de presente outro livro de crônicas dela: “Felicidade Clandestina”. E alguma coisa dentro de mim havia mudado, porque não é possível que as crônicas de “Laços de Família” sejam assim tão diferentes das de “Felicidade Clandestina” para que eu tenha desprezado tanto as primeiras e amado tanto as segundas.

Sim, com certeza foi algo em mim que mudou. Tenho certeza que, meses atrás, teria desdenhado de “O ovo e a galinha”, crônica que agora eu simplesmente acho genial.

Não sei se vocês deveriam dar crédito a uma leitora tão volúvel como eu, mas se ainda restar um tantinho assim de confiança, leiam Clarice.

Felicidade ClandestinaO que? Felicidade Clandestina

Quem? Clarice Lispector

Quando? 1971

Páginas? 159

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4 comentários sobre “Felicidade clandestina

  1. Isso da indulgência com quem se gosta foi uma observação bem perspicaz. Já ouvi gente falando que prefere Lygia Fagundes Telles a Clarice Lispector, mas eu mesmo não poderia opinar, já que li mais a Lygia. Mas li trechos de “A descoberta do mundo”, em que a Clarice expõe sentimentos sobre o seu cotidiano, que achei muito bons. Além de “O Primeiro Beijo”, que tinha no livro de português da sexta série (o “Português: Linguagens”, usado em quase todos os colégios de Belo Horizonte na época).

  2. acho que gosto ainda mais dos romances que dos contos. em ‘a hora da estrela’ encontrei um alterego (pergunte a délio sobre o ‘macadélio’). mas foi em ‘paixão segundo GH’ que a ascese veio – em forma de barata. talvez este último tenha sido um dos livros mais marcantes que já li. agora tou com o ‘um aprendizado ou o livro dos prazeres’. pronto te cuento! :)

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