Teoria geral do esquecimento

A Teoria do livro é a geral do esquecimento, mas a que vou formular aqui no blog após a leitura é a Teoria geral do aprisionamento.

imagesCAM5RV91

Perguntaram para Agualusa: Por que você escolheu o título “Teoria geral do esquecimento”? E ele respondeu: “Porque o livro fala sobre exercícios de esquecimento. Fala de pessoas que praticam exercícios de esquecimento. Foram esquecidas, ou querem ser esquecidas, porque acham que só assim conseguirão sobreviver. Contudo, eu defendo o contrário. Creio que é recordando que nos podemos salvar. Recordando, para compreender e perdoar”

Antes, uma pequena contextualização. Em Teoria Geral do Esquecimento, o escritor Angolano José Eduardo Agualusa conta um pouco da vida de Ludovica, uma portuguesa que ainda na adolescência sofreu um grande trauma e passou a viver praticamente reclusa, dentro de casa. Morou muitos anos com a irmã sem por o pé na rua. Quando a irmã se casa, Ludo vai morar com o casal numa cobertura na cidade de Luanda, Angola.

Poucos dias antes da independência do país africano (ocorrida em 11 de novembro de 1975) e da guerra civil que se segue, o casal desaparece e Ludo se vê sozinha no apartamento. Após outro incidente dramático, Ludo ergue um muro no corredor do prédio, separando seu apartamento do resto do mundo.

Para mim, a construção da parede é uma grande metáfora de como nós realmente somos os responsáveis por construir os muros das prisões que nos prendem e aprisionam. Ninguém, a não ser nós mesmos, somos os responsáveis por criar as regras que nos oprimem. Se não as criamos, no mínimo as aceitamos sem questionar. E quando questionamos, o fazemos sem um real desejo ou com a força necessária para a mudança. Fazemos mais como uma criança emburrada que pirraça para que o adulto responsável venha e resolva a situação em seu lugar.

Não fui eu que criei a regra machista que mulher tem que se dar o respeito, que a mulher que anda de saia curta, com as pernas de fora, e blusa decotada quer mais é levar cantada mesmo e depois não pode nem reclamar se for abusada. Entretanto, cabe a mim me sujeitar ou não a essa regra. Será que vou aguentar calada todo e qualquer tipo de provocação machista ou vou me levantar e encarar o preconceito?

A maioria das coisas que nos prende já existia, mas somos nós que damos o reboco e o acabamento final. Claro que o tempo todo ficam martelando em minha cabeça o que é normal, qual é comportamento normal, qual é o curso normal que minha vida deve seguir. Martelam que normal são os casais brancos, heterossexuais, de estatura mediana, com empregos estáveis. Martelam que o normal é terminar o Ensino Médio, emendar um curso superior, iniciar uma carreira, fazer uma pós, trabalhar no mínimo mais de 8h por dia, ter filhos e coloca-los na escolinha, para iniciarem novamente a mesma jornada.

O mundo vai colocando os tijolinhos ao nosso redor e a gente completa tudo com cimento quando segue esse fluxo sem refletir se é isso mesmo o que queremos.

Reclamamos que não temos tempo. Mas quem ocupou mais de 20h do dia com trabalhos, cursos e afins? Reclamamos que nossos chefes nos oprimem, que trabalhamos mais do que deveríamos e não recebemos para isso. Mas quem se sujeitou a isso? Reclamamos que os juros estão altos, que fica difícil pagas as prestações do carro e o financiamento do apartamento e que por isso é preciso trabalhar mais e mais. Mas quem decidiu que carro e casa próprios eram mesmo prioridade?

Ludovica demorou anos para jogar abaixo os muros que tinha construído. E precisou da ajuda de uma criança para isso. Bem sintomático que uma criança, que teoricamente ainda é livre de preconceitos e amarras, tenha ajudado Ludo.

capaO que? Teoria geral do esquecimento

Quem? José Eduardo Agualusa

Quando? 2012

Páginas? 176

Anúncios

4 comentários sobre “Teoria geral do esquecimento

  1. Excelente observação. Muitas vezes colocamos a culpa de uma eventual infelicidade nas circustâncias, mas ignoramos o quanto de responsabilidade nossa há nesse processo, e o quanto somos coniventes com uma série de coisas, mesmo que elas nos desagradem.

    Ajuda de uma criança? Fiquei curioso pra ler o livro.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s