Holocausto Brasileiro

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foto criançaHomens (não) vestindo trapos, Homem abandonado numa cama infestada por bichos, Criança (ainda) viva entregue às moscas

Nunca ganhei um livro com uma dedicatória que resumisse tão bem o enredo de uma obra como em “Holocausto Brasileiro”. Aliás, acho que a frase inserida na dedicatória conseguiu expressar os fatos narrados no livro melhor do que a própria autora.

Holocausto Brasileiro conta a história do hospital psquiátrico de Barbacena (vou usar o termo hosital para padronizar, mas hospital era a última coisa que aquele lugar era) que em décadas de funcionamento matou mais de 60 mil pessoas. Pessoas que chegavam sem nenhum diagnóstico e que viviam amontoadas, sem roupas, sem comida ou água potável. Que eram completamente humilhadas e desumanizadas. Pessoas que, na maioria das vezes, chegaram ali por serem incômodas à alguém. Ou por que engravidaram do patrão, ou por que foram abusadas e não podiam ficar soltas para reclamar. Meninos órfãos, crianças autistas. Muitas pessoas morreram sem nem saber o porquê.

E por mais que o livro tenha uma investigação e apuração jornalística muito boas, muitos dados e estudo completo do hospital, seus funcionários e “pacientes”, para mim, o livro peca na narrativa. Primeiro por que parece mais um compilado de matérias do que o livro coeso que se pretende ser. De fato, o que deu origem ao livro foi mesmo uma série de reportagens escritas pela jornalista Daniela Arbex, mas ela não conseguiu se desvencilhar disso ao ecrever a obra.

Além disso, em muitos momentos o livro se mistura com um romance. A jornalista escreve como se fosse um narrador que estivesse de fato presente em todas situações. Não que isso seja um problema em si, mas em alguns momentos ela volta à estrutura jornalística tradicional ao narrar os fatos como uma pessoa que foi atrás das informações. E esses dois momentos distintos não foram bem costurados.

Mas nada disso seria um problema tão grande se eu não tivesse ficado com a grande impressão que a autora defende e ameniza demais o papel daqueles que, se não criaram a regras do hospital psiquiatrico, jogaram, por anos, de acordo com tais regras, sem de fato se levantarem contra os frequentes abusos que ajudavam a perpetuar.

No livro, uma funcionária ganha ares de mártir ao ser retratada com uma pessoa que sofreu por ter que trabalhar durante quatro (Quatro!) décadas no hospital, tendo que asssitir os constantes abusos. Ela é tida como grande heroína por gastar parte do seu salário comprando leite em pó para as crianças do hospital e por salvar uma (uma!) paciente ao colocar no correio a carta que a própria paciente tinha escrito para que o seu filho a fosse resgatar.

Pera.

Uma pessoa que não fez quase nada durante 40 anos, por medo de ter sua carreira no estado afundada,  passa longe de ser qualquer coisa que não uma pessoa conivente com um sistema falido e corrupto.

Talvez eu esteja sendo dura demais. Afinal, também sou conivente com muitas situações que não considero justas. Mas eu não tento parecer a heroína que sei que não sou.

Ah, tal frase da dedicatória que resume toda a história de uma maneira muito mais verídica do que a feita por Daniela Arbex?

“O mundo é um lugar perigoso de se viver, não por causa daqueles que fazem o mal, mas sim por causa daqueles que observam e deixam o mal acontecer”

livroO que? Holocausto Brasileiro

Quem? Daniela Arbex

Quando? 2013

Páginas? 255

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3 comentários sobre “Holocausto Brasileiro

  1. Concordo demais com seu comentário.
    Como livro-reportagem, faltou muita informação do “outro lado”: da administração do hospital, dos médicos, enfermeiros, políticos e moradores da cidade, universidades que compraram cadáveres…tanta gente foi conivente! Deve ser difícil conseguir que essas pessoas falem sobre Barbacena, mas afinal, parte de ser jornalista é encher o saco pra conseguir essas coisas. Talvez a autora devesse ter investido mais nesse lado antes de lançar o livro.
    Além disso, achei que faltou muita revisão no texto, tanto pra delimitar o que é criação narrativa e o que é relato, como você apontou, quanto de erros mesmo — tem uma história de uma ex-interna que morreu ora em 2006, ora em 2011, no texto.
    E, por fim, achei que a narrativa “romanceada” é extremamente dramática, cheia de metáforas desnecessárias. O episódio já é extremamente triste, sem nem uma vírgula a mais. Isso empobrece o trabalho de uma história que, não sei como, não foi urgentemente contada antes.

  2. Pois é, faltou demais um (bom) editor! Também vi erros ortográficos e etc. Mas o pior mesmo é aquele capítulo em que ela fica falando da vida do fotógrafo da Revista O Cruzeiro!!!!

    Sério, ela fala da carreira dele, da esposa, do filho que morreu…e o que isso tem a ver com o resto? Nada? São umas 30 páginas que não precisariam estar ali…

    Concordo com você no excesso de romantização e também não sei como essa história não foi contada antes…

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