A brincadeira

Primeiro post amigo do ano! Mais uma vez da amiga Lorraine e, mais uma vez, de um livro que eu ainda não li. Mais um para a lista de 2014.

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Antes de tecer qualquer comentário sobredo livro, tenho que agradecer a um ex-aluno de Comunicação da UFES, Daniel Fernandes Vilela, por ter se desfeito de algumas obras literárias doando-as para qualquer estudante do nosso curso que sentisse interesse em lê-las. Quando vi a lista e os pedidos dos ‘novos donos’ daqueles livros, logo indiquei meu nome como interessada no livro A brincadeira. Confesso que não conhecia o tcheco Milan Kundera, apenas já havia lido em um blog de literatura comentários a cerca de outra obra do autor e nada mais.

Levei alguns meses para realmente o ler. Antes dele, fiz outras leituras que há muito eu também postergava. A brincadeira teve que esperar um pouco e, ironicamente, vim a lê-la em um momento muitíssimo apropriado. É engraçado como ‘ao acaso’ nos deparamos com livros que trazem em seu interior a chave ou pista para aquelas dúvidas existenciais humanas pelas quais estamos inevitavelmente sujeitos. Li em outro lugar que essa sensação trata-se, na verdade, de uma consequência química com relação ao cérebro ou algo assim, pois nesses momentos nossos sentidos e interesses acabam por se focalizarem naquilo que então nos incomoda ou desejamos e, assim, ficamos mais atentos e sensíveis a nossa procura que cedo ou tarde nos é iluminado o caminho ao seu encontro. Pois bem, esse foi meu sentimento ao ler as páginas de A brincadeira. Fiquei boquiaberta com as respostas e confirmações que eu encontrava ali. Um sentimento quase que de companheirismo e de partilha com Milan Kundera. E, ao mesmo tempo, um sentimento estranho e para mim ainda inominável ao me lembrar que ali eu me estreitava com personagens de um tempo do qual não vivi. Vi-me, inúmeras vezes, concordar plenamente e até dizer para mim mesma que era exatamente disso que eu estava falando. Era exatamente isso que eu estava sentindo, mesmo agora, quase cinquenta anos depois de o livro ter sido publicado. A brincadeira é um livro que não fica velho, uma obra atemporal. É também ,como dizem, universal, pois trata singularmente do que é humano. Os sentimentos – como amor, pureza, ódio, rancor vingança, vaidade, simplicidade, compaixão; o tempo; as relações e seus processos de construção; os laços e seus rompimentos; a vida.

O livro é dividido em sete partes, sendo as seis primeiras narradas por diferentes narrador-personagens da trama que se revezam e sua última parte por três desses narrador-personagens que fecham o enredo com o encontro de suas histórias. No total são quatro narrador-personagens: Ludvik, Helena, Jaroslav e Kostka, cada um contando a história conforme suas perspectivas dos fatos. Todos se conhecem e têm suas histórias de vida cruzadas. Não posso me esquecer de uma importante personagem do livro: Lucie. Ela aparece na história sempre pelos olhos dos outros, principalmente pelos de Ludvik, que a amava. Engraçado é que Lucie não nos é mostrada como agente de sua história, outros contam a história dela, e por isso é difícil afirmar que conheci a personagem de verdade. O próprio Ludvik fica com essa dúvida após ouvir outra ‘versão’ de Lucie da boca de um de seus amigos. Mas o principal narrador-personagem é mesmo Ludvik. É na história dele que mais mergulhamos e é por causa dele que o livro leva o nome de A brincadeira.

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Supostamente uma crítica ao comunismo, Kundera escreveu no prefácio do livro: “Poupe-me do seu stalinismo. A brincadeira é uma história de amor”

 

A trama toda se passa em cidades da República Tcheca, sendo a Morávia a mais mencionada. onde começa e termina a história. A primeira parte do livro nos apresenta Ludvik e seu retorno à cidade natal para um acerto de contas da injustiça que sofrera quinze anos atrás. Àquela época ele vivia em uma sociedade ascendente ao regime totalitário do comunismo e, depois de fazer uma brincadeira sarcástica com as ideias comunistas e seus símbolos, foi expulso do Partido Comunista, do qual fazia parte e, se não bastasse, teve seus estudos na faculdade interrompidos, pois também havia sido expulso dali. Assim foi que viu seu futuro devastado e sua história tomando, arbitrariamente, outro rumo. Essa é a grande angústia e rancor de Ludvik. E essa é grande genialidade que Kundera encontrou para nos manter presos à história que passa a fazer várias ponderações a cerca das relações humanas, dos sentimentos, dos vícios, enfim, da vida. Cada personagem que Milan Kundera nos apresenta traz em suas personalidades e em suas histórias de vida um pouco do que somos. Ao menos foi o que senti, fazendo com que os amemos a cada verbo, adjetivo e substantivo lidos.

A brincadeira é um livro com substância e que deve ser compartilhada. Que mais pessoas possam bebericar dessa substância e se sentirem tontos para então depois se iluminarem. Assim foi comigo, por isso desejo que outros tenham semelhante ou melhor experiência após lerem A brincadeira.

 

brincadeiraO que? A brincadeira, primeiro livro do autor

Quem? Milan Kundera

Quando? 1967

Páginas? 327

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