Verdade Tropical II

Vai escutando enquanto lê

Sempre gostei muito de escutar Caetano Veloso. Não posso dizer com exatidão qual foi a primeira música dele que escutei e gostei, mas sei que foi em casa, ainda criança, nos discos e cds de minha mãe. O fato de ter conhecido Caetano por minha mãe me levou ao engano de imaginar que ela era fã dele. Fui descobrir que não lá pelos idos de 2013, quando quis dar de presente de aniversário para ela ingressos para o show de Caetano e, ao ligar para perguntar se ela queria, escutei como resposta: “Ah, não queria muito ir no show do Caetano não. Desde que escutei ele ao lado de Milton…esse sim tem um vozeirão. A voz do Caetano até sumiu do lado dele…mas está tendo apresentação do Cirque du Soleil, se você quiser me dar de presente…”. Tive que me recobrar rapidamente do desapontamento de ter feito uma imagem errada do gosto musical de minha mãe. E meu bolso teve que se recobrar do choque da diferença entre o preço dos ingressos de uma e outra apresentação.

Esse episódio me fez pensar no que meus filhos irão achar quando virem minha coleção de cds. E, de fato, se pensarem como eu pensei, terão uma visão bastante distorcida do meu gosto musical. Imagina se eles acharem que sou fã de todos os cds que comprei (e ganhei) e não gostei, ou gostei e não gosto mais?

Mas essa já é outra história. Voltando a Caetano: é muito bom gostar de um músico já com tantos trabalhos realizados antes mesmo que eu nascesse. É como começar a gostar de um seriado que já tem várias outras temporadas: enquanto todos estão esperando ansiosamente pelos próximos passos, pelos novos episódios, você pode voltar lá atrás e se deliciar com coisas velhas, mas novas para você. É assim que me sinto com Caetano, descobrindo cds antigos, entrevistas passadas, registros de shows realizados há muito tempo e, agora, um livro escrito na década de 1990, mas só recentemente descoberto por mim!

Como o título já anuncia, no livro Caetano conta, do seu ponto de vista, o que foi a Tropicália; o Tropicalismo. Os seus antecedentes, como a infância vivida em Santo Amaro, na Bahia, o seu durante, ainda que o durante só possa ser de fato reconhecido em retrospecto, e também seus desdobramentos, como o tempo na prisão e o exílio – estão todos no livro.

Para descrever tudo isso, Caetano escreve como quem conta um caso numa mesa de bar, num sofá com os amigos, indo e voltando no tempo cronológico e abrindo parênteses infinitos, daqueles que a gente até esquece do que mesmo estávamos falando. Também não parece se esforçar muito em recuperar memórias ou fatos esquecidos e vai se concertando ao longo do relato. Numa conversa, quando lá no meio da história lembramos de um detalhe do início que esquecemos de contar, fazemos uma pequena pausa, esclarecemos o detalhe faltante e voltamos ao rumo da conversa. Escrevendo um livro, tendo a oportunidade de voltar, apagar e reescrever, seria de se esperar que o autor, ao se lembrar de algum detalhe que esquecera, voltasse nas páginas e reescrevesse o trecho. Não é o que faz Caetano. Ele simplesmente continua contando, se corrige do detalhe e segue em frente – como em uma conversa mesmo.

Em alguns casos contados, Caetano até admite não saber bem ao certo como aconteceu, quem exatamente estava presente ou em que ano se passou, se antes ou depois de outro fato importante. Algumas pessoas poderiam se decepcionar com tais inconsistências biográficas. Para mim, é o que torna o livro mais atraente e sincero.

Para quem gosta de música, para quem se interessa pela história política e musical do Brasil, para quem gosta de saber um pouquinho mais da vida de seus músicos preferidos, vale muito à pena a leitura. Para descobrir que a música “Baby” foi originalmente escrita por Caetano seguindo um pedido de Bethânia, para ser cantada pela própria, mas que acabou caindo no gogó de Gal; para descobrir que Geraldo Vandré, ao escutar Gal cantando a música em um bar, disse que aquilo era horrível; para descobrir que Caetano estava junto e ficou puto, brigando com Vandré. Assim como para descobrir que a primeira vez que Gil cantou “Aquele abraço” foi em um show de despedida de Caetano e Gil, antes de partirem para o exílio. Show organizado para que eles conseguissem o dinheiro para a viagem.

80097_gLivro: Verdade Tropical

Autor: Caetano Veloso

Páginas: 515

Ano: 1997

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2 comentários sobre “Verdade Tropical II

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