Palmeira Seca

Que delícia é se surpreender com um livro do qual você não esperava nada demais. Palmeira Seca foi um empréstimo feito por uma amiga há alguns meses (anos?), bem assim: “toma, lê esse livro aqui. E depois escreve o que você achou. Acho que você vai gostar”. Mas ele acabou indo parar na pilha dos livros a serem lidos e de lá não saiu até o dia em que eu estava procurando um livro fino, fácil de carregar, para levar em uma viagem de ônibus como material de apoio a longas horas de desconforto. Dizem que tem livros que escolhem a gente. Eu também acho que tem livros que escolhem quando querem ser lidos.

Quem conta a história de Palmeira Seca é seu Durval, um fazendeiro já velho que da varanda de sua propriedade vai e volta no tempo, recordando fatos da infância, da vida adulta e da velhice recente. Histórias que vão se completando e nas quais a gente se dependura, querendo saber o desfecho. Durval passeia pelas recordações e por familiares e dessas histórias a gente vai percebendo e se dando conta da beleza, mas também das dificuldades e tristezas, comuns à vida, no campo, na cidade ou onde quer que seja.

Vira e mexe eu me pergunto como teria sido minha vida caso eu tivesse nascido no campo. E se eu não tivesse sido criada numa grande cidade e me acostumado a achar normal a vida que levo por aqui? Tem gente que acredita no livre-arbítrio e na meritocracia. Besteira. O máximo que a gente faz é escolher dentro de uma gama limitada de opções que nos é oferecida. Por sorte, alguns acabam nascendo num cenário mais rico de opções, outros num cenário mais limitado. Quem é que escolheu nascer em São Paulo ou em Berlim? Numa família rica ou pobre? Em um lar onde se tem o que comer ou em uma casa onde não há nada? Quem escolheu ter passado a infância em uma fazenda ou em um barraco, sendo preto ou sendo branco, homem ou mulher?

De qualquer forma, desde o nascimento somos condicionados a certos tipos de rituais, comportamentos, estilos de vida, modos de pensar e agir, o que me leva a pensar em muitos “ses”. Se eu tivesse nascido no campo, se eu tivesse aprendido a plantar, se eu tivesse aprendido as estações das frutas.

Ao se lembrar  de fatos e acontecimentos vividos, Durval também se coloca muitos “ses”. E se eu tivesse castrado aquele touro antes que ele machucasse meu filho? E se eu não tivesse contratado aquele rapaz? No fim, o que seu Durval vai perceber é que todos nós vivemos a vida que nos é possível, ainda que a única possibilidade seja lutar, aprender, ensinar e viver como se o que estivesse pela frente fossem apenas páginas em branco.

Veja bem como são as coisas, pesquisando fotos para ilustrar o post, descobri que o livro foi adaptado para o teatro e também para uma minissérie de televisão, pela Rede Minas. Descobri também que o livro ganhou, em 1989, o prêmio Guimarães Rosa

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Livro: Palmeira Seca

Autor: Jorge Fernando dos Santos

Páginas: 107

Ano: 1989

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